Belo depoimento de uma moradora do Bonete


Comunidade Caiçara do Bonete
Para complementar o post anterior - "Uma Proposta Perigosa: Bonetes e Castelhanos podem se tornar zonas urbanas" - segue abaixo um belo depoimento de uma moradora do Bonete, Simoni Lara de Oliveira, professora da comunidade, grande observadora que nos transmite a atmosfera do vilarejo caiçara através da poesia natural de seu dia a dia.





"Sou moradora e professora na comunidade do Bonete há 5 anos.Casei-me com um boneteiro pescador e há 2 anos construímos nossa família, com a chegada do boneteirinho Pedro. Além das questões ambientais que são notórias, há o peso cultural que só morando e convivendo pude perceber o quanto é precioso. Temos senhoras lenhadoras, que com seus lencinhos na cabeça,botas nos pés e longas saias entram nas redondezas da mata em busca de seu material precioso que é a lenha seca. Elas ficam de mau humor se não a encontrarem. Atravessam cachoeiras, e carregam a lenha, com aquele sorriso no rosto,sem se importar com o peso que carregam no ombro ou em carrinhos de mãos. O que importa é rechear sua “cozinha de lenha”. Agora na época da tainha os pescadores organizam-se em equipes e vão “à tróia” uma espécie de perseguição ao peixe, e vão de canoa.95% dos homens pescam , se a pescaria for boa, deixam o quinhão de sua família e vão à cidade para vender seu pescado. No verão, em época da lula, famílias inteiras vão em sua canoas ou lanchinhas atrás dessa saborosa carne que é uma das principais fontes de proteína da comunidade, e ainda fazem um dinheirinho. Tem gente que aguarda a chegada da lula para comprar seu guarda-roupas, ou dar entrada numa cama nova, ou outro bem que lhe traga um conforto dentro de suas modestas casas. Após a colheita da mandioca, há um ritual desde o “raspar” (descascar) a mandioca até o processo final que é a farinha, onde a matriarca divide, ao final, um pouquinho para cada filho…Não há sobressalente pra venda. Mas as roças já são escassas, pois de certa forma, muitos já vem vendendo essas terras para turistas.Enfim, são inúmeros costumes e hábitos que fazem o tempo andar mais devagar, pois a pressa é outra, o relógio? É o sol.E o mar? Além do alimento e diversão(todas as crianças são “viciadas” no surf. O surf é o assunto que “rola” aos cochichos na aula.E ainda, o mar é o grande protetor desta comunidade, pois só navega ali que realmente conhece.Para sair da comunidade em dia de mar não tão manso, é uma atividade que só eles sabem fazer.Quem é de fora e já se arriscou, afundou ou voltou. Desde pequeninos, os meninos em suas canoinhas treinam e brincam no rio Nema para saírem na praia. Acredito que cada músculo do corpo vem sendo treinado para sentir o momento certo de uma avançada “barra a fora” em direção ao mar. Os homens quando se cruzam no mar falam “por ameaço” uma espécie de mímica, onde gestos e expressões faciais contam naquele momento como está o mar que deixaram para atrás ou da pescaria. Essas são algumas das cenas que eu, nestes 5 anos , venho observando e me encantando neste cenário meio de novela das 6, misturado com “piratas do caribe”..rs. Muitos destes caiçaras loiros de olhos azuis, ou ruivos , trazem o mistério de sua origem e muitos até acreditam que sejam de piratas que ali se instalaram após naufrágios…Muitos ali, entre os mais velhos, descrevem detalhes de lobisomem de uma forma, que quase acredito, aí balanço a cabeça confusa e começo a pensar em qual classificação da biologia eu colocaria o lobisomem…rs Ah pessoal, quando começo falar do Bonete, esqueço da vida e não paro mais. Mas tudo isso ,e muito mais, exitem por conta do isolamento geográfico e acesso seletivo pelo mar. Essa “tribo”, em sua melhor definição, está prestes a acabar, se a estrada ali chegar."


[1] Depoimento encontrado em um dos comentários à matéria http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/prefeitura-de-ilhabela-propoe-transformar-praias-do-bonete-e-castelhanos-em-areas-urbanas/





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Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

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