Muriquis - O Povo Manso da Floresta

O Muriqui, o maior primata (não humano) das Américas - habitante endêmico da Mata Atlântica e candidato a mascote das Olimpíadas 2016 - ainda é um ilustre desconhecido e corre o risco de desaparecer de nossas florestas antes de ganhar a fama que merece . Enquanto pesquisadores lutam abnegadamente para impedir que isso aconteça,  nós podemos usar as mídias sociais em prol da divulgação e preservação desse carismático animal.



Muriqui, muriqui, tu estavas aqui
Bem antes do europeu, bem antes do progresso
Teu alegre saltar entre ramos e ventos
Vai ficando tão longe. Onde estás, muriqui?
És apenas lembrança
De um tempo que eu não vi
Carlos Drummond de Andrade  ("Mata Atlântica")


O Povo Manso da Floresta

Também conhecido como Mono-Carvoeiro devido às manchas pretas no rosto e nas mãos, o Muriqui é um antigo habitante de nossas Serras do Mar e da Mantiqueira. É filho da Mata Atlântica e apenas nela habita. No passado, as diversas tribos de índios da região já se encantavam com esse macaco tão peculiar - acredita-se que o nome Muriqui seja a versão tupi para "Povo manso da floresta" [1]. Ainda que essa etimologia não esteja correta, nenhuma definição seria mais justa para a espécie: o Muriqui é um dos animais com hábitos mais pacíficos e solidários que existem, não possuindo o prática de competir entre si nem por alimentos nem por fêmeas. E olha que no mundo primata - e aqui incluo o bicho homem - esse comportamento é muito  incomum.   Nas palavras do escritor Renato Costa:

"O Muriqui é uma espécie singular pela sua vida grupal pacífica, onde um grau de disputa mais elevado jamais ocorre. São animais extremamente carinhosos uns com os outros, sendo comum ver esses animais tocando-se ou se abraçando por poucos ou vários minutos, formando, às vezes, cachos onde vários deles se abraçam ao mesmo tempo, pendurados pelas caudas. A hierarquia entre eles não é baseada nem na força nem na idade, como em outras espécies, mas no grau de afetividade de que cada indivíduo é objeto. Fêmeas e machos têm peso e tamanho semelhantes, inexistindo qualquer forma de agressividade ou competição no comportamento sexual, que se mostra livre e respeitoso. (...) Sem terem que usar qualquer estimulante ou psicotrópico, eles lograram formar a pura sociedade alternativa que a raça humana idealizou e jamais conseguiu realizar." [2]

Não quer dizer que não haja violência alguma entre esses animais; mas são eventos muito raros e pontuais. A sua índole é mesmo solidária. Por exemplo: quando um bando de machos Muriquis encontra uma árvore carregada com os melhores frutos, emitem vocalizações para chamar seus outros companheiros espalhados pela floresta.


Frente a todas essas louváveis características, a prática do abraço como um forma de interação social é icônica da sociedade muriqui. Eles se abraçam quando estão felizes, quando estão brincando, quando se sentem ameaçados, quando está frio... Costumam se abraçar em grupo, pendurados pelas caudas, num grande abraço coletivo. 





Semeador de Pomares

Os Muriquis têm hábitos diurnos e arborícolas, podendo deslocar-se rapidamente pela mata devido às suas adaptações morfológicas: a cauda preensil, os braços longos e as mãos em forma de gancho. A sua agilidade ao se deslocar pelas árvores é tanta que meu amigo Luiz Fernando Priante , líder dos Trilheiros do Valle, apelidou um dos bandos de Muriquis em São Francisco Xavier-SP  de "Kamikazes",  por suas temerárias acrobacias e saltos desenvoltos de galho em galho.

Vivendo em bandos que podem chegar até 50 indivíduos, eles passam grande parte do tempo descansando no alto das árvores ou se alimentando e deslocando em busca de comida. Descem esporadicamente ao solo para beber água, atravessar clareiras ou buscar bons frutos que caíram.

O Muriqui depende da mata; a mata depende do Muriqui. Sua presença em uma região serve como termômetro para a qualidade ambiental da área. Se há Muriqui, é porque o ecossistema está saudável.  Por engolir os frutos com sementes inteiras e defecá-las praticamente intactas, esse primata é um grande dispersor de sementes com boas chances de germinação. Na verdade, o Muriqui cria o seu próprio pomar e passa seus dias locomovendo-se num circuito de árvores que ele mesmo semeou. Muitos outras espécies de animais e flora se beneficiam com ação desse jardineiro. O fim dos Muriquis resultaria no enfraquecimento genético das matas e no sumiço do restante da fauna nativa.




Onde são encontrados

Hoje se reconhece duas espécies de Muriquis; a Serra da Mantiqueira age como uma barreira geográfica entre elas. São:

Muriqui-do-Norte (Brachyteles hypoxanthus): Se diferencia do Muriqui-do-Sul por apresentar despigmentação nas regiões da face e períneo e por possuir um polegar vestigial. Habita o ecossistema Floresta Estacional Semidecidual, em fragmentos florestais situados no estado de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo.  Vive em bandos de tamanhos bastante variáveis, podendo chegar até 40 indivíduos.  População total de cerca de 500 a 900 indivíduos, o que o coloca na lista de "criticamente em perigo de extinção". É uma das espécies de primatas mais ameaçadas do mundo.

Muriqui-do-Norte

Muriqui-do-Sul (Brachyteles arachnoides): Se diferencia do Muriqui-do-Norte por não apresentar despigmentação nas regiões da face e do períneo e por não possuir um polegar vestigial. Habita o ecossistema Floresta Ombrófila Densa da região costeira e a Floresta Estacional Semidecidual do interior dos Estados de São Paulo,  sul do Rio de Janeiro e nordeste do Paraná. População estimada de 1.158 indivíduos, o que o coloca na lista de espécie "em perigo de extinção".   
Em São Francisco Xavier-SP, na Serra da Mantiqueira, o Muriqui-do-Sul tornou-se símbolo do distrito, apesar de habitar um área sem nenhuma proteção legal, contando apenas com a consciência ambiental dos proprietários particulares e da população local para perpetuação de sua existência.

Muriqui-do-Sul



A uma braçada da extinção

Infelizmente a existência desse primata pacífico e semeador está nas mãos de outro primata que não compartilha dessas características na mesma intensidade. A destruição da Mata Atlântica, a alta fragmentação das florestas, a intensa caça ilegal e os baixos investimentos em vigilância e fiscalização das áreas protegidas, estão levando a espécie à extinção em um futuro muito próximo. E todos esses fatores são frutos da ação humana. Para agravar o processo, a espécie possui uma maturação sexual tardia e baixos índices de reprodução, o que não permite uma reposição populacional na mesma proporção.

Os Muriquis dependem muito da educação ambiental da população local no sentido de abolir o habito de sua caça, que ainda é muito intensa nos dias de hoje. Dependem, também, da consciência ambiental dos proprietários rurais para que esses não avancem com o desmatamento floresta adentro. E dependem da sociedade como um todo, seja unindo esforços com projetos que já estão em andamento, seja divulgando-os pelas mídias sociais. Abaixo listo os principais projetos em prol da conservação do Muriqui.



Esforços de conservação

Há alguns esforços de conservação do Muriqui; esses muitas vezes são esforços abnegados e  apaixonados, pois geralmente lutam com pouco investimento. Todos eles se sustentam nos seguintes pilares de atuação: Proteção do habitat natural dos Muriquis, correta recuperação de áreas degradadas (reflorestamento), criação de corredores ecológicos, "refaunização" bem planejada da floresta e educação ambiental da população. Os internautas podem ajudar divulgando-os. Seguem abaixo (com links):


Projeto que conta com 10 metas e 54 ações diversas, que vão desde contagem das populações de Muriquis, fiscalização de florestas para protegê-los de caçadores à educação ambiental.

30 pesquisadores de diversas disciplinas com a missão de mapear, georreferenciar, quantificar e estudar o comportamento do Muriqui-do-Sul no Estado do Rio de Janeiro.


Visa tornar o Muriqui mundialmente conhecido com intuito de conseguir mais fundos para sua conservação.

Busca propor uma estratégia de conservação para preservação da população de do Muriquis-do-Norte presente no Espírito Santo.

Responsável por pesquisas e proteção  da população do primata que habita parte da Serra dos Órgãos, no Estado do Rio de Janeiro.

Possui a missão de organizar as atividades de pesquisa e conservação do Muriqui-do-Sul no Estado de São Paulo.

Projeto Muriquis do Sossego, no Estado de Minas Gerais
Estuda o atual estado de conservação da população de Muriquis-do-norte presente na Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Sossego e em remanescentes da região do Corredor Ecológico Caratinga, visando contribuir com planos de ação para conservação da espécie.

Fundada por iniciativa da família Abdala, cuida de uma RPPN em Minas Gerais de cerca de 900ha onde mora a maior população de Muriquis-do-Norte. Promove preservação, educação ambiental e muita pesquisa, que nos leva à história abaixo:


A Antropóloga Americana e os Muriquis de Minas Gerais

Karen Strier, no inicio das pesquisas
A antropóloga americana Karen Strier é para os Muriquis-do-Norte o que uma Jane Goodall é para os Chimpanzés e uma Dian Fossey foi para os Gorilas.

A pesquisadora chegou ao Brasil há 30 anos para estudar esses primatas no município mineiro de Caratinga. Foi uma pioneira. Graças aos seus estudos e esforços, hoje a população local de Muriquis quadruplicou.

Tudo isso só foi possível, também, devido ao apoio, à consciência ambiental e à integridade pessoal de Feliciano Miguel Abdalla e sua família, donos da Fazenda Montes Claros, que transformaram 900ha de sua propriedade em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Essa reserva é hoje administrada pela ONG que eles mesmos criaram (como já foi dito no texto acima).

Os 30 anos de pesquisa de Karen Strier viraram um livro: "Faces in the Forest: The Endagered Muriqui Monkeys of Brazil". É uma pena não estar a venda em livrarias ou na internet. Karen foi, talvez, a primeira humana a quem um Muriqui em ambiente selvagem estendeu seu acolhedor abraço. Isso aconteceu quando um macho de um bando vizinho surgiu próximo ao bando que a pesquisadora estudava. Ele se assustou com ela e tentou afugentá-la. Um bando de Muriquis fêmeas, já acostumadas com a presença da antropóloga, expulsou  o invasor e ofereceu um abraço de conforto para Strier, que teve  de usar muito profissionalismo e responsabilidade para não ceder à tentação de realizar o contato físico com seu amado objeto de estudo. O fato é que, se há uma pessoa que merece esse abraço, esse alguém é ela mesmo.



Mais Muriquis nos próximos posts

Esses nossos cativantes e ameaçados parentes serão assunto para muitos posts daqui para frente no Entre Serras. Há muito o que falar sobre eles e a sua preservação. Já passou do momento de abraçarmos essa causa.

Um abraço de Muriqui para todos, e até o próximo!



[1] Talvez o mais correto seja considerar Muriqui como uma corruptela de Myra-Qui, "gente que se bambaleia, que vai e vem".

[2] "Golfinhos, Papagaios e Muriquis: Três Caminhos Diferentes da Evolução Anímica", Renato Costa, Brasil

[3] Trilheiros do Valle - https://www.facebook.com/TrilheirosDoValle 

Nome do Autor

Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

0 comentários:

Postar um comentário