Trilha das 7 Praias e Ruínas da Lagoinha


Das ruínas de um passado próspero às belezas naturais de um presente preservado - o percurso da Trilha das 7 Praias nos faz refletir sobre o a relação tênue entre desenvolvimento e natureza. Se há dois séculos a Vila da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba não tivesse entrado em declínio, talvez essas belezas naturais que hoje desfrutamos não existissem mais. São essas belezas que agora fazem a fama da cidade.



Dados Gerais

Onde Ficam as Ruínas: Zona Sul de Ubatuba, no Bairro da Lagoinha, lado oposto à praia atravessando a Rio-Santos.

Onde Fica a Trilha: Zona Sul de Ubatuba, início no canto esquerdo da praia da Lagoinha

Atividades: Caminhada, Observação de Pássaros, Boldering.

Nível: Fácil (indicada para ecoturistas iniciantes)


Vídeo




O sobrado de pedra

Será possível um dia equilibrar desenvolvimento e ecologia de forma que o meio ambiente e a civilização humana avancem juntos? Nossa espécie dependerá cada vez mais da resolução desse conflito. Aos pés da Serra do Mar, zona sul de Ubatuba, temos um raro caso onde a natureza subjugou o desenvolvimento. Ali jazem os restos mortais de um enorme engenho construído provavelmente no início do século XIX. Edifício robusto, erigido por pedras grandes, areia, conchas e óleo de baleia, impressiona pela sua altura, pela largura de suas paredes e tamanho de suas janelas e portas. Esse era uma engenho de uma fazenda modelo, criada para o ensino de novas técnicas de fabricação de açúcar e produção de carvão animal através de carneiros merinos. Seu dono era o engenheiro francês João Agostinho Stevenné. Sua fazenda, porém, entrou em decadência por volta de 1850, com o desenvolvimento de novas técnicas agrícolas. Devido a relatos orais e alguns vagos registros, que esse engenho e essas terras tenham sido compradas por um certo Capitão Romualdo - com fama de homem honrado, dono de plantação de café a cana de açúcar, produtor de cachaça e açúcar mascavo. Especula-se ainda que ele tenha construído uma fábrica de vidros da qual ainda podemos encontrar as ruínas bem próximas a Praia da Lagoinha, e nela engarrafava aguardente que produzia. É causo corrente que após a proclamação da lei Áurea, seus escravos libertos preferiram continuar servindo-o, seja por estima e por medo do desconhecido. Dizem ainda mais: o tal capitão sentava a mesa com todos os seus escravos e com eles ceava e que após sua morte, sua esposa enlouquecera. Era o início das ruínas. A Vila - etc e tal - de Ubatuba entrava em declínio com a crise na produção do Vale do Paraíba. A região entrou no esquecimento do restante do Brasil, sendo o lar paradisíaco dos caiçaras até metade do século XX.



Em plena segunda década do século XXI a construção ainda possui o grande aqueduto e roda d'água do engenho preservados. Numa região exposta a tantas intempéries com a Serra do Mar de Ubatuba, podemos dizer que essa estrutura se manteve bravamente durante seus dois séculos de vida. Hoje sem telhados e assoalhos, o engenho desfruta de um casamento harmonioso com a Floresta Atlântica. Ao caminhar por suas ruínas nossa imaginação faz um movimento inevitável - a cantoria harmoniosa dos escravos na produção abafada e doce do açúcar e da águardente. Devaneios a sonhar com uma máquina do tempo.
 

A natureza em matrimônio

Atrás das ruínas, ergue-se a Serra do Mar, colossal. Ali desce um riacho de águas cristalinas formando vários poços serra abaixo. E por grande capricho, escorre por uma paredão inclinado de 40 metros formando o mais belo véu de noiva. Para encontrar essa cachoeira, deve-se percorrer uma trilha que se inicia sob um pórtico de madeira erguido ao lado direito das ruínas. Ali nasce uma trilha que segue estreita mata adentro, seguindo as tubulações da Sabespe. Repentinamente começa-se a subir serra afora; após uns 15 minutos de subida inclinada em boa marcha, chega-se a uma bifurcação: do lado esquerdo a trilha continua serra acima (subimos até onde a essa trilha morre e não encontramos nada por lá); no meio da bifurcação há uma árvore fina com várias marcas e setas indicando para o lado direito, onde por sua vez desce a trilha que leva até a cachoeira. Nessa descida precisa-se passar por cima de troncos e raízes de árvore, já sentindo o clima mudar com a proximidade da cachoeira. Ar condicionado natural. É só seguir a trilha, o frescor e o barulho da água. Um visual incrível; cachoeira enorme desaguando num poço pequeno, porém fundo. No seu canto esquerdo da há uma larga cadeira natural de pedra  para aqueles que quiserem se recostar no paredão e sentir as águas caindo sobre seus ombros.  



Cachoeira Véu de Noiva

  

Mapa da Trilha




Oeste e Perez

Praia da Lagoinha
Saindo das ruínas, atravessando a Rio-Santos, de costas para a serra, chegamos à Praia da Lagoinha. Praia de águas calmas, de condomínio luxuosos e movimento intenso apenas no verão. No seu canto esquerdo inicia-se a trilha das 7 Praias, após cruzar o veio de águas doces que desce a serra e deságua no mar. Dependendo da maré a água pode bater no tornozelo ou acima do joelho.  O nome da trilha é auto explicativo e a ordem das praias é a seguinte: Oeste - Perez - Bonete - Grande do Bonete - Deserta - Cedro - Fortaleza. O caminho inicia-se bem aberto e bem cuidado, sempre beirando o mar. Em dias ensolarados a água fica esverdeada e é comum avistar peixes e tartarugas enquanto se caminha. As Praias do Oeste e Perez ficam logo no início da trilha; são pequenas e separadas entre si por um amontoado de pedras. A praia do Oeste é a menor - um pequeno encanto que já serve como refúgio caso a Praia da Lagoinha esteja muito freqüentada. A Praia do Perez, por sua vez, possui uma particularidade: é composta, também, por areia monazítica - preta, radioativa, de propriedades medicinais recebendo um amplo estudo científico hoje em dia.

Praia do Perez
 

A pequena e a grande


Até a Praia do Bonete esta pode ser considerada uma trilha bem suave; crianças e idosos podem percorrê-la sem maiores problemas, obervando apenas o uso de calçados apropriados para caminhada. As árvores da Mata Atlântica protegem o caminhante dos raios solares, mantendo o frescor e o aroma bom de floresta. Conhecida, também, como Bonetinho, essa praia é um charme de águas verdes e plácidas escolhido por sábios caiçaras como moradia; há um quiosque feito de bambu onde pode-se consumir alguns pescados e bebidas.

Praia do Bonete (Bonetinho)
Praia Grande do Bonete
Na sequência, em pouco tempo alcança-se a praia Grande do Bonete; praia de tombo, com vista para Ilha Bela. Essa faz jus ao nome e a sua extensão é agravada pelo fato de possuir uma areia grossa e fofa que exige um esforço extra do caminhante. Olhando para dentro da mata, algumas casas despontam verde adentro. É uma comunidade caiçara que habita essa região há tempos que não podemos determinar, mas que hoje também dividem o cenário com algumas casas de veraneio. Felizmente, parece que os donos dessas casas possuem consciência ambiental e cultural, pois fundaram junto aos caiçaras a Associação Marvirado, que tem o objetivo de incentivar os costumes culturais, divulgar e organizar festas típicas com a Festa de Sant'ana, padroeira do Bonete. Ali também se realiza anualmente o campeonato de corrida de canoas; estas ainda são construídas utilizando algumas técnicas tradicionais dos índios tupinambás, os antigos - e extintos - habitantes dessas terras. No canto esquerdo da Grande do Bonete há um restaurante tradicional onde se pode experimentar deliciosos pratos típicos preparados com muita farinha, mandioca e frutos do mar. Ao lado desse restaurante se encontra uma placa com os dizeres "Caminho dos Jesuítas", indicando a direção das próximas praias.
 

Duas joias do litoral  


Praia Deserta
Praia do Cedro
A partir da Grande do Bonete, a trilha começa a demandar um pouco mais - culpa de uma subida íngreme e exposta ao sol logo de início. Os ecoturistas não condicionados podem perder um pouco seu fôlego nesse trecho. Mas na sequencia uma descida o tanto quanto inclinada, que conta até mesmo com um apoio de cordas em determinado momento, desemboca nas duas próximas praias - que, por outras razões - também podem nos fazer perder o fôlego. A bela Praia Deserta é a que vem primeiro; o lugar perfeito para tranqüilidade e privacidade. É só atravessar um amontoados de pedras e o mesmo se pode dizer de sua vizinha Praia do Cedro, considerada uma das mais bonitas de Ubatuba. Esta possui um amontoado de pedras no seu lado esquerdo, um bom local para se praticar snorkeling. Quem seguir as pedras e explorar ainda mais o canto esquerdo da praia poderá  encontrar uma outra bem suis generis formada inteiramente por rochas. Muitos a chamam de Pequena do Cedro, que apesar de não ser desfrutável para um banho, é agradável para os olhos. Em suma, Deserta e Cedro - praias que pedem por uma pausa mais longa para serem apreciadas.


Uma trilha mais fechada

Rumo à última praia: Fortaleza. A mata torna-se bastante fechada, a trilha estreita, o relevo sinuoso e acidentado. Também nada demais para pessoas com preparo, mas é desaconselhável para crianças. Há riscos mais freqüentes de tropeços, quedas de declives altos, palmeiras com espinhos (macaúbas), cipós cortantes e encontro com cobras peçonhentas (principalmente Jararacas e Jararacuçus).  No que diz respeito a essa caminhada, este é também o percurso mais longo entre duas praias. Mas que após metade do caminho nos presenteia com um cenário inesquecível: a visão de toda a baía da Fortaleza e a Serra do Mar imponente no horizonte, vestida com seu manto de Mata Atlântica.  O Pico do Corcovado sobressai a tudo e a todos. Uma pausa contemplativa obrigatória.

Vista da Baía da Fortaleza
Boldering no Pontão da Fortaleza

Em seguida, embalados pela sinfonia de passarinhos e insetos no interior da mata, quase ao final da trilha, há a possibilidade de seguir uma outra que surge à direita e leva até o Pontão da Fortaleza. Lá, grandes rochas esculpidas pelo mar e pelo vento servem hoje como paredes perfeitas para prática do Bouldering, uma modalidade de escalada que exige muita força e técnica e que está ganhando cada vez mais adeptos mundo afora.    
 

A delicada Fortaleza

Praia da Fortaleza
Do Pontão você já visualiza logo ao lado a Praia da Fortaleza e não há erros quanto ao caminho. O ponto final da trilha é uma praia de águas extremamente calmas, serve para ficar de molho após a caminhada. Ali há muitas casas bonitas de veraneio e muitos barcos costumam ficar ancorados, flutuando a espera de seus donos. Praia muito bonita, de areia batida, e costuma estar bem frequentada.
Brava da Fortaleza
Para aqueles mais dispostos, pode-se continuar a caminhada por asfalto rumo a Praia Dura ou então pegar um ônibus que de 20 em 20 minutos passa próximo às casas no canto esquerdo da praia.
No caminho há um mirante para uma pequena praia de ondas extensas conhecida como Praia Brava da Fortaleza, uma de minhas prediletas de Ubatuba. Tenho um apego emocional por essa. Até a Dura, seguindo a estrada que corta condomínios, passa-se pelos acessos às praias Costa, Vermelha do Sul e Brava do Sul. Por fim a Praia Dura - também entre minhas favoritas - aos pés os Corcovado. Próximo a Praia há o acesso a Rio-Santos, ponto estratégico para pegar um ônibus de volta a Praia da Lagoinha, caso haja tempo e energia para voltar tudo a pé novamente.

Por fim

Fica a pergunta: estaríamos desfrutando dessas trilhas quase desertas dentro de uma mata bem preservada se há dois séculos a Vila da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba tivesse prosperado? Nem todas as ruínas em nosso caminho são desfechos ruins.


Praia Dura


Previsão do Tempo

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Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

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