Perigo nas Cachoeiras: Cabeça D'água

Cachoeira do Trombador

Na tarde de domingo do dia 20 deste mês, quatro banhistas morreram após serem atingidos por uma Cabeça D'água, na cachoeira do Trombador, em Ubatuba (SP). Esse acontecimento nos alerta sobre os perigos de um banho de cachoeira e rio em dias chuvosos. O tipo de risco que muitos ecoturistas desavisados correm por falta de informação - eu mesmo nadava sozinho em outra cachoeira de Ubatuba no exato momento da tragédia.





Aprendam com meus erros

Domingo, dia 20 de Janeiro, subi sozinho uma trilha que nasce ao lado esquerdo das Ruínas da Lagoinha e desemboca na grande cachoeira Véu de Noiva, Serra do Mar adentro. Buscava eu realizar algumas "takes" que faltavam para completar o vídeo da "Trilha das 7 praias e Ruínas da Lagoinha" (link aqui). Um vento forte e carregado de umidade vinha do sentido Ilha Bela. Sozinho e atento, encontrei a cachoeira sem grandes dificuldades. Para o meu desagrado havia algumas pessoas ali e, para piorar, começou a chover. Olhei em direção às serra e as nuvens já encobriam os topos das montanhas; o volume de água que escorria pelo imenso paredão de 40 metros estava bem maior comparado ao que eu havia visto em fotografias. Não entrei na água; avisei discretamente uma das pessoas sobre o perigo de uma enxurrada, mas não recebi muito crédito e nem mesmo botei muita fé nas minhas palavras - só não queria molhar meu equipamento. Desci até o início da trilha. Entrei no carro que aguardava ao lado das ruínas e esperei pacientemente. Depois de alguns minutos vi as outras pessoas saindo da trilha e indo embora. 
Após uma hora de espera solitária, percebi que a chuva se dirigia para o norte de Ubatuba, lambendo a Serra do Mar. Olhei para o topo das montanhas onde corria a cachoeira: raios de sol transpassavam as nuvens. Subi tudo novamente e, encontrando a cachoeira vazia, me desloquei com cuidado entre suas pedras, procurando a melhor posição para armar minha câmera. Só então desfrutei do banho de cachoeira sozinho, no coração da Floresta Atlântica (link). De tempos em tempos, olhava preocupado para cima, verificando o volume de água que caía. Fiz algumas imagens em vídeo que faltavam e voltei satisfeito.

Eu, preocupado com o volume de água

Só nesse curto relato podemos perceber dois graves erros meus:
1- Aventurar-me sozinho em uma trilha que não conhecia dentro da mata fechada, ainda mais não avisando ninguém sobre o meu local de destino (para mais informações a esse respeito,  assistir ao filme "127 horas").
2- Banhar-me em uma cachoeira quando se está chovendo forte ou constantemente na região. Esse erro é ainda mais grave em regiões serranas.

Às 14h30, enquanto eu me banhava nessa cachoeira na zona sul de Ubatuba, uma tragédia ocorria em outra cachoeira na zona norte, tendo um triste desfecho: quatro banhistas eram carregados para a morte por uma Cabeça D'água.

O Acidente




Link Reportagem da Vanguarda



Tromba D'água ou Cabeça D'água?
Popularmente convencionou-se chamar de Tromba D'água aquilo que na verdade consiste uma Cabeça D'água. Para os cientistas esses são fenômenos naturais distintos. Vejamos suas diferenças:
Tromba D’água é um tornado que se forma sobre uma superfície líquida, captura umidade e vai andando rumo ao continente. A maioria das trombas d’água surge a partir de nuvens de tempestade em cima do mar, mas o fenômeno também aparece nos caudalosos rios amazônicos e nos Grandes Lagos da América do Norte. Como podem ver, seu visual explica sua alcunha de "tromba". Felizmente perde muito da sua força quando chega ao continente, mas pode causar problemas a embarcações mais leves quando no mar.
Tromba D'água
Cabeça D'água é como se denomina uma grande enxurrada que se forma quando um grande volume de chuva cai na cabeceira do rio (próximo à sua nascente) ou em bacias hidrográficas e a água da chuva soma-se à água do rio descendo impetuosamente pelos seu curso, aumentando o volume e a velocidade, como num efeito "avalanche" . Havendo condições favoráveis ao rápido escoamento superficial, as águas concentram-se em pouco tempo nos canais fluviais. Em regiões serranas, como a inclinação é muito grande, a enchente ocorre repentinamente e as águas escoam com incrível velocidade e fúria serra abaixo, arrastando muitas vezes tudo que estiver à sua frente: árvores, pedras, casas, pessoas.


Em diferentes setores da Serra do Mar este fenômeno é muito comum, fato que é atestado inclusive pela existência na região de inúmeros rios identificados pelo nome de “Roncadores”, em alusão ao barulho emitido pelo deslocamento violento de grandes volumes de água.


Nos EUA é conhecida como Fast Flood (enchente relâmpago).




Cabeças D'água em vídeo

Abaixo o vídeo mais famoso e impressionante de uma Cabeça D'água e seu triste desfecho. Gravado na Índia em 2011:

Dois vídeos "Antes e Depois" de uma Cabeça D'água:

Após uma Cabeça D'água em Jacareí:

 O momento exato da chegada de uma Cabeça D'água, também na Índia. Felizmente sem vítimas dessa vez. Ainda assim as pessoas arriscam muito ao ficar perto das margens:


Prevenção
No Brasil não há muitos trabalhos de conscientização e prevenção contra acidentes desse tipo. Lembro que na Nova Zelândia em todos os parques naturais que visitava havia muita informação sobre o perigos das corredeiras, mesmo daquelas em rios rasos de 20 centímetros de profundidade. Então, segue aqui nosso conselho:
Evitem cachoeiras em épocas de chuva; sempre que forem visitar cachoeiras, chequem antes as condições meteorológicas da região. Caso não sigam esse primeiro conselho, ao se banhar, estejam certos de que o acesso ao poço seja amplo, com poucos obstáculos, para que numa emergência possam sair com mais facilidade. Ainda que você possa observar alguns sinais com antecedência - como perceber que água começou a ficar mais suja e com o aparecimento de galhos de árvores - a única prevenção garantida mesmo é não entrar na água e nem ficar próximo às margens.
Lembrando que, ainda que não haja chuva no local da cachoeira, poderão ocorrer enchentes ocasionadas por chuvas nas bacias hidrográficas e nascentes no alto das serras.
O único equipamento de segurança eficiente é a prudência.
Este que vos escreve aprendeu a lição.

Nome do Autor

Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

3 comentários:

  1. Muito obrigado pelas informações, foram muito esclarecedoras. Já visitei algumas cachoeiras na Serra do Mar e gosto muito de fazer isso, mas depois de saber dessa tragédia em Ubatuba fiquei um pouco apreensivo. Como você disse o único equipamento de segurança eficiente é a prudência. Parabéns pelo site!

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  2. Boa tarde. A trilha para a cachoeira véu de noiva é fácil? Tem bifurcações? Vi um relato falando que ela é muito íngreme qdo já perto da cachoeira e que faz com que muitos desistam. Gostaria de fazer essa trilha, porém meu foco principal é fazer 7 praias e se puder me responder, ajudará mto na decisão da escolha ou não por conta do tempo. Obrigada

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    1. Boa tarde, Karina!
      Para pessoas em boa forma, a cachoeira véu da noiva é de fácil acesso sim; a parte íngreme perto da cachoeira não é tão desafiante, apenas tirará o fôlego de algumas pessoas com menos preparo físico, só isso. Dura 15 minutos em média, portanto, dá para conciliar com a trilha das 7 praias no mesmo dia, sem problemas. Para mim, vejo nesse fácil acesso é até um problema: muitas pessoas sem educação degradam o local - já encontrei latinhas de cerveja e garrafinhas de plástico no local, sem falar das macumbas rsrs.
      Essa trilha deve ser feita com bastante atenção, pois a trilha bifurca num determinado momento descendo à direita (há setas em uma árvore indicando); se vc continuar subindo à esquerda, vai parar em lugar nenhum.

      No mais, se quiser mais detalhes sobre essas trilhas, leia nosso post: http://www.projetoentreserras.com.br/2013/02/trilha-das-7-praias-e-ruinas-da-lagoinha.html

      Forte abraço, e ótima caminhada

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