Ana Chata e Bauzinho - Trilha Ecológica RIO VIVO


A trilha ecológica RIO VIVO do mês de Agosto nos levou até o Monumento Natural Estadual da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí-SP. O passeio nos proporcionou a contemplação da Pedra do Baú de seus dois lados opostos: respectivamente do alto do Bauzinho e da Ana Chata. Encerrando a caminhada, um banho de cachoeira nas águas congelantes de um dos afluentes do Rio Sapucaí, para revigorar o corpo.







Vídeo




O Monumento Natural Estadual da Pedra do Baú é um o terceiro dessa categoria de  Unidade de Conservação criado no estado de São Paulo. Consiste em uma enorme rocha que desponta no alto da Mantiqueira, lapidada pelos ventos e chuvas. A Pedra do Baú e Bauzinho eram totalmente unidas no passado - hoje pode-se ainda ver, no terreno logo abaixo, detritos da parte que desmoronou separando-as para sempre. Do lado oposto, um pouco mais distante, assoma-se o topo redondo da Ana Chata.


Foto: Eliseu Frechou


Trilha estreita

A ascensão ao Bauzinho, saindo do centro de informações, é muito rápida e tranqüila. A recompensa é muito superior ao esforço, como podem ver na imagem abaixo.

Pedra do Baú, vista do Bauzinho (esquerda) e da Ana Chata (direita)
Fotos: João Marcos Massote

Já para chegar à Ana Chata, deve-se adentrar uma mata fechada e percorrer uma trilha estreita que contorna toda a Pedra do Baú. A ascensão da Ana Chata possui alguns desafios, como uma bela caverna (lar de morcegos inofensivos),  subidas em escadas inclinadas e travessias em espaços estreitos de pedra. Tudo muito tranqüilo para pessoas ativas. Do alto de seus 1.905 metros, a Pedra do Baú servia como uma estreita pista de decolagem para dezenas de parapentes, que decoravam o céu sobre nossas cabeças. 


Foto: Edevarde Moreira


A urgente conservação do local

A trilha é bastante movimentada aos fins de semana; por isso, cuidados devem ser tomados de forma que o impacto do turismo não seja negativo para o ecossistema local. Muitas pessoas de espírito pequeno já rabiscaram alguns lugares da pedra, assinando com seus nomes o seu próprio atestado de ignorância, causando uma poluição estética desnecessária ao monumento. 

Administrada pela Fundação Florestal e pela prefeitura de São Bento do Sapucaí, há muitos projetos voltados para a melhor preservação dessa unidade de conservação e que devem ser colocados em prática logo. A prefeitura precisará de voluntários. Recrutaremos pelo blog Entre Serras, quando chegar o momento.


Um banho de vida

Fechamos o dia com as águas gélidas que descem a serra em forma de cachoeiras para desaguarem no Rio Sapucaí. Águas que dependem da preservação das matas; matas que dependem da consciência e inteligência do homem; homem que depende das águas para sobreviver. Um ciclo que deve ser respeitado a todo custo e que o Projeto RIO VIVO faz o papel de nos lembrar.

Foto: Luiz Fernando Priante

Foto: Willian Ferreira


Link para reportagem São Bento do Sapucaí recebe projeto RIO VIVO.



    
Leia mais...

Reflexões sobre o Ecoturismo: Visitar a natureza hoje

Há tempos carrego comigo um excelente estudo sobre o ecoturismo que muito esclarece a respeito da relação - ora conflituosa, ora harmoniosa - entre homem e natureza nos dias de hoje. Se trata do artigo "Ecoturismo: discurso, desejo e realidade", escrito pelos pesquisadores Rita Mendonça e Zysman Neiman. Neste post trago alguns trechos que gostaria de compartilhar,  todos relativos a primeira parte do artigo intitulada "Visitar a natureza hoje". É uma leitura que vale o tempo investido. Peço perdão aos pesquisadores quanto às minhas escolhas dos trechos, assim quanto aos títulos que usei para pontuar alguns deles.



"Ecoturismo: discurso, desejo e realidade"
Visitar a natureza hoje



Uma gradativa mudança de mentalidade


As áreas naturais selvagens vêm sendo eliminadas durante toda a história da humanidade. [...] O interesse por elas vem crescendo à medida que suas extensões vêm diminuindo. Não se trata de um fenômeno cultural isolado. Em todas as regiões do mundo encontramos indivíduos, discursos e instituições preocupados e ativos em relação ao significado e as conseqüências do desaparecimento dos ambientes e das espécies silvestres.

[...] O fluxo natural das coisas vai revelando o que de fato tem importância para nós. O crescimento do número de visitas às áreas naturais nos últimos anos vem possivelmente nos mostrar que, tal como da arte, precisamos do contato com a Natureza, com a nossa fonte de vida.


A importância simbólica da natureza selvagem


Os contos de fadas testemunham a importância psicológica das florestas para os seres humanos. Simbolizando o inconsciente, elas significam o lugar sombrio, perigoso, que nos faz medo. A representação dos desafios, do enfrentamento do bem e do mal se dá, com uma enorme freqüência, em todos os povos do

mundo, na floresta. Ela contém, portanto, todos os obstáculos que devemos enfrentar e superar para nos tornarmos reis e rainhas, autores de nossa própria história pessoal. Que seria de nós se não a tivéssemos, perto ou longe, para nos dar a esperança de um dia nos tornarmos dignos de nossa rica experiência humana? A floresta simboliza o próprio processo de aprendizado da vida. Ela dá sentido às atividades humanas. Ou melhor, ela nos faz questionar o sentido do que fazemos.



Humanizando espaços: o medo do desconhecido

Desde o Neolítico, com a descoberta da possibilidade de interferência nos processos naturais, domesticação e o cultivo de espécies selvagens, pudemos enfrentar, além do medo do perigo, o desconforto (e medo também) da incerteza, de em um dia encontrar alimento e noutro não.[...]

E assim fomos humanizando os espaços, protegendo-nos do desconhecido. Hoje em dia, só ficamos à vontade em ambientes urbanos ou rurais bem transformados. Mesmo o naturalista mais ousado gosta de voltar para casa e encontrar o espaço com o qual se identifica. Fomos nos acostumando a uma forma de viver afastada dos elementos naturais – ou pelo menos sem consciência deles - evitando aquilo que aparentemente está contra e que vai a qualquer momento produzir algum mal, atacar, causar doenças ou coisas nesse sentido. Ao humanizarmos os espaços, transformamos a sociedade humana em algo muito centrado em si mesmo [...]. Fomos, assim, nos afastando desses medos, dessas descobertas, desses fascínios, que estão de alguma forma ocultos no inconsciente coletivo.


A natureza sempre nos ensina alguma coisa nova

Quando entramos em uma área natural quase sempre nos sentimos bem, percebemos que alguma coisa muda. Quanto mais nos aprofundamos nessa relação, nessa intimidade com os elementos naturais, percebemos que ali há uma grande escola que nos proporciona uma das raras oportunidades que temos para realmente evoluir. Quem já teve a experiência de, por exemplo, caminhar por uma mesma trilha diversas vezes pode compreender isso: a cada vez há coisas diferentes que podemos ver ou coisas diferentes em que pensar. A situação nunca se repete, o que nos leva a refletir sobre a constante transformação de tudo. Ao perceber isso percebemos a nós mesmos.







A floresta ainda vive dentro de nós


[...] Veja os vídeos e programas para televisão sobre a vida selvagem: como eles fascinam as pessoas, sejam crianças ou adultos. Quantos seres nem sabemos que existem. Eles vivem suas vidas completamente indiferentes a nós! Não somos tão importantes assim! Criamos um ambiente humano mais confortável, seguro e adequado para nós, mas a ideia de que somos os seres mais importantes do planeta simplesmente está na nossa concepção. Não quer dizer que o mundo esteja de fato a nosso serviço.



O contato com a natureza nos aprimora como seres humanos

Uma visita a espaços naturais, que reflita sobre essa lógica e a questione, transforma nosso tradicional comportamento indiferente. Ao perceber mais, ampliamos nossa experiência. O tempo mais lento de contemplação ajuda a percepção dos ritmos e da essência das coisas, o que é raro de se poder fazer em ambientes humanos. Usamos muito pouco nossos atributos, como a capacidade de percepção sensorial, a consciência, a intuição, a elaboração dos sentimentos - coisas tão importantes para a vida cotidiana das pessoas, que vão determinar a relação que temos com os outros, com o meio natural com nosso próprio mundo. Na Natureza, isso é mais fácil: ao avistarmos um pássaro, uma lagarta, um roedor, há uma possibilidade de aprimorarmo-nos como ser humano. [...]


O anseio humano pela preservação

[...] A preocupação com a preservação ambiental, o sentido de cuidado, é próprio da natureza humana, ou seja, destruição e conservação são processos que serão assimilados pelo funcionamento dos ecossistemas, independentemente de ficarmos chateados ou felizes[...]. A ética e a estética são duas invenções humanas que explicam o anseio pela preservação. Só sobrevivemos em função do afeto que temos pelo outro e que origina a preocupação com os filhos, com os descendentes, com os companheiros de sociedade, com os membros da tribo. Esse afeto, o gostar do outro, produz um "efeito colateral" de gostar de coisas em geral, da Natureza [...] O afeto que temos pelos elementos naturais traz a preocupação com os animais e as plantas, fazendo com que algumas pessoas canalizem esse sentimento de cuidado e adotem-no como causa, dedicando boa parte do tempo de suas vidas na batalha pela sua preservação. [...]


Num mundo de 6 bilhões de pessoas, só a natureza nos re-humanizará

Esse afeto, num mundo com 6 bilhões de pessoas, funciona de forma diferente do que sempre foi quando éramos pequenos grupos. Estamos perplexos face à complexidade do mundo em que vivemos, onde somos tratados, muitas vezes, apenas como um número. Isso pode dar uma sensação de impotência pois o que está além do pequeno contexto perceptível de cada indivíduo fica fora de sua compreensão e portanto de seu espectro de ação. Cada um é direcionado para cuidar de sua própria vida, subtraindo-se do sentido de participação coletiva.


A experiência de estar na Natureza pode ser um grande laboratório para a reformulação da questão da individualidade/individualismo nos processos coletivos: não sabemos que experiência poderia ser melhor do que essa para as pessoas se re-humanizarem. O espaço natural pode ser visto como uma necessidade vital sem o qual não se pode evoluir. Assim, ele deixa de ter apenas valor utilitário e passa a ter valor existencial. Se ele precisa existir para que eu também exista, devo ter cuidados com ele sem esperar algo em troca e criar uma nova perspectiva para atividades como o ecoturismo, diferente das que existem hoje.


Leia mais...

Projeto RIO VIVO - Em prol do Rio Paraíba do Sul


Há mais de 10 anos a BAND VALE promove o PROJETO RIO VIVO, que através da comunicação e educação ambiental busca alertar e mobilizar a população do Vale do Paraíba em prol do grande rio que abastece três estados e dá o nome à região: o Paraíba do Sul*. O ENTRE SERRAS participou do projeto através de uma Trilha Ecológica que você poderá conferir no post abaixo.





SOBRE O PROJETO

 Com o patrocínio da FIBRIA e VINAC Consórcios, o projeto possui várias iniciativas. Entre elas:
- Mesas de debate na Radio Stereo Vale 103,9 FM, com autoridades do poder público, ambientalistas e ONG's, para cobrar soluções e discutir bons modelos de preservação.
- Concursos de Fotografias e Desenhos
- Expedições Rio Vivo, que tem o objetivo de educar os participantes com atividades e desafios em meio a natureza (acampamento, navegação, exercícios físicos e esportes de aventura).
- Trilha Ecológicas, que guiam os participantes  por algumas das trilhas mais famosas da Mantiqueira e da Serra do Mar, reforçando a importância da preservação do meio ambiente.


TRILHA ECOLÓGICA PEDRA DA ONÇA - 29 de Junho de 2013

Durante todo ano o RIO VIVO abre inscrições para pessoas dispostas a participar de suas trilhas ecológicas. Os destinos geralmente são escolhidos em áreas de nascentes e mananciais que alimentam a Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul. O Entre Serras foi chamado para registrar a trilha até a Pedra da Onça, em São Francisco Xavier, organizada e guiada por nossos amigos e parceiros dos Trilheiros do Valle. O passeio contou com alimentação e seguro para os caminhantes, que precisaram se preocupar apenas em admirar as belezas do local.



Ao final da trilha, no interior de uma mata nativa protegida pelo Sítio Cheiro de Mato, todos os participantes foram presenteados com um encontro inesquecível  - nosso querido e ameaçado habitante do dossel da Mata Atlântica, o Macaco Muriqui, bamboleando-se entre os galhos sobre nossas cabeças; um grupo de uns 10 indivíduos, e entre eles havia algumas fêmeas carregando filhotes, o que sempre nos deixa muito esperançosos. Um dos filhotes exibiu sua recém adquirida destreza nos galhos para nossa câmera.  



Este que vos escreve, enquanto entretido em gravar essa cena, foi alvejado acidentalmente por fezes de um desses animais que repousava em uma árvore logo acima. Pude comprovar na prática que o Muriqui se trata mesmo de um grande semeador de florestas: analisando suas fezes, confirmei que são constituídas também por sementes intactas, as quais, quando passam pelo processo digestivo do macaco, se tornam ainda mais preparadas para a fertilização.




VÍDEO ENTRE SERRAS + RIO VIVO

Participe dessa caminhada assistindo ao vídeo abaixo:



Segue, também, um ótima matéria sobre os 10 anos do Projeto RIO VIVO exibida no programa Vale Ecologia, nos ensinando ainda mais sobre a situação atual do Rio Paraíba do Sul:



Nao deixem de participar das próximas iniciativas do RIO VIVO, acompanhando pelo blog e facebook do projeto:


*Bacia Hidrográfica do Paraíba do sul  




Leia mais...

Belo depoimento de uma moradora do Bonete


Comunidade Caiçara do Bonete
Para complementar o post anterior - "Uma Proposta Perigosa: Bonetes e Castelhanos podem se tornar zonas urbanas" - segue abaixo um belo depoimento de uma moradora do Bonete, Simoni Lara de Oliveira, professora da comunidade, grande observadora que nos transmite a atmosfera do vilarejo caiçara através da poesia natural de seu dia a dia.





"Sou moradora e professora na comunidade do Bonete há 5 anos.Casei-me com um boneteiro pescador e há 2 anos construímos nossa família, com a chegada do boneteirinho Pedro. Além das questões ambientais que são notórias, há o peso cultural que só morando e convivendo pude perceber o quanto é precioso. Temos senhoras lenhadoras, que com seus lencinhos na cabeça,botas nos pés e longas saias entram nas redondezas da mata em busca de seu material precioso que é a lenha seca. Elas ficam de mau humor se não a encontrarem. Atravessam cachoeiras, e carregam a lenha, com aquele sorriso no rosto,sem se importar com o peso que carregam no ombro ou em carrinhos de mãos. O que importa é rechear sua “cozinha de lenha”. Agora na época da tainha os pescadores organizam-se em equipes e vão “à tróia” uma espécie de perseguição ao peixe, e vão de canoa.95% dos homens pescam , se a pescaria for boa, deixam o quinhão de sua família e vão à cidade para vender seu pescado. No verão, em época da lula, famílias inteiras vão em sua canoas ou lanchinhas atrás dessa saborosa carne que é uma das principais fontes de proteína da comunidade, e ainda fazem um dinheirinho. Tem gente que aguarda a chegada da lula para comprar seu guarda-roupas, ou dar entrada numa cama nova, ou outro bem que lhe traga um conforto dentro de suas modestas casas. Após a colheita da mandioca, há um ritual desde o “raspar” (descascar) a mandioca até o processo final que é a farinha, onde a matriarca divide, ao final, um pouquinho para cada filho…Não há sobressalente pra venda. Mas as roças já são escassas, pois de certa forma, muitos já vem vendendo essas terras para turistas.Enfim, são inúmeros costumes e hábitos que fazem o tempo andar mais devagar, pois a pressa é outra, o relógio? É o sol.E o mar? Além do alimento e diversão(todas as crianças são “viciadas” no surf. O surf é o assunto que “rola” aos cochichos na aula.E ainda, o mar é o grande protetor desta comunidade, pois só navega ali que realmente conhece.Para sair da comunidade em dia de mar não tão manso, é uma atividade que só eles sabem fazer.Quem é de fora e já se arriscou, afundou ou voltou. Desde pequeninos, os meninos em suas canoinhas treinam e brincam no rio Nema para saírem na praia. Acredito que cada músculo do corpo vem sendo treinado para sentir o momento certo de uma avançada “barra a fora” em direção ao mar. Os homens quando se cruzam no mar falam “por ameaço” uma espécie de mímica, onde gestos e expressões faciais contam naquele momento como está o mar que deixaram para atrás ou da pescaria. Essas são algumas das cenas que eu, nestes 5 anos , venho observando e me encantando neste cenário meio de novela das 6, misturado com “piratas do caribe”..rs. Muitos destes caiçaras loiros de olhos azuis, ou ruivos , trazem o mistério de sua origem e muitos até acreditam que sejam de piratas que ali se instalaram após naufrágios…Muitos ali, entre os mais velhos, descrevem detalhes de lobisomem de uma forma, que quase acredito, aí balanço a cabeça confusa e começo a pensar em qual classificação da biologia eu colocaria o lobisomem…rs Ah pessoal, quando começo falar do Bonete, esqueço da vida e não paro mais. Mas tudo isso ,e muito mais, exitem por conta do isolamento geográfico e acesso seletivo pelo mar. Essa “tribo”, em sua melhor definição, está prestes a acabar, se a estrada ali chegar."


[1] Depoimento encontrado em um dos comentários à matéria http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/prefeitura-de-ilhabela-propoe-transformar-praias-do-bonete-e-castelhanos-em-areas-urbanas/





Leia mais...

Uma proposta perigosa: Bonete e Castelhanos podem se tornar zonas urbanas

Vista para o Vilarejo Caiçara do Bonete

Está marcada para dia 12 a audiência pública [1] na qual a sociedade civil poderá discutir e vetar a proposta extremamente questionável que visa categorizar as regiões das mais idílicas comunidades tradicionais da IlhaBela como zonas urbanas. Para melhor entender a polêmica, leiam o texto abaixo.




Uma Proposta Perigosa

A prefeitura de Ilhabela quer transformar as praias do Bonete e Castelhanos em zonas urbanas, o que permitiria a construção de casas de luxo, hotéis e outros empreendimentos imobiliários em dois dos mais famosos remanescentes de Mata Atlântica e cultura caiçara do litoral norte de São Paulo.

Castelhanos
Localizadas no lado leste da ilha – que é voltado para o mar aberto –, Bonete e Castelhanos são famosas pelo ótimo estado de conservação de suas matas e pela cultura rústica das comunidades caiçaras que vivem ali, isoladas do ambiente urbano do lado oeste da ilha. Cerca de 250 pessoas vivem na comunidade do Bonete e outras 250, na Baía de Castelhanos



Bonete
Essas áreas, hoje classificadas como zonas rurais, se tornariam zonas urbanas. O novo zoneamento proposto pela prefeitura foi aprovado no dia 28 de Junho. Essa votação foi realizada praticamente na surdina, sem a participação dos principais afetados as comunidades caiçaras que habitam essas praias.

“Aprovaram isso com a maior cara de pau que eu já vi na minha vida. Já tava tudo combinado. Simplesmente ignoraram a opinião das comunidades tradicionais que serão mais afetadas por isso”, diz o biólogo Edson Lobato, conhecido como Fredê, do Instituto Bonete. “Essas comunidades preservam uma cultura que já está praticamente extinta no nosso litoral, que é a cultura caiçara. Não se trata de colocar uma redoma sobre elas, mas de valorizá-las como o paraíso ambiental e sociocultural que são. Vamos transformá-las em mais uma praia de condomínios de luxo que ficam fechados o ano inteiro e onde os caiçaras só trabalham como serviçais? Não podemos engessar os caiçaras, mas também não podemos enganá-los dizendo que esse modelo de desenvolvimento é sustentável e que vai ser tudo bom pra eles.”

O prefeito (Toninho Collucci) nega que a intenção seja abrir as praias para a especulação imobiliária. O novo zoneamento, segundo ele, é necessário para regulamentar as pousadas, lanchonetes e outros serviços que já funcionam nas praias. A classificação como Z4 obrigaria a prefeitura a garantir o abastecimento de água, coleta de esgoto, eletricidade e outros serviços básicos de infra-estrutura urbana nos dois locais. O que poderia implicar, também, na expansão da estrada e da trilha que dão acesso às praias, facilitando o fluxo de pessoas.

Uma linha de “desenvolvimento” que preocupa as comunidades tradicionais. “Sabemos que o pacote é completo. Pode até vir alguma coisa boa, mas também vai vir muita coisa ruim”, diz o presidente da Associação Bonete Sempre, Andre Queiroz. Segundo ele, que já apareceu gente querendo comprar terrenos na comunidade nos últimos dias.

Há uma escola na comunidade que “funciona muito bem”, segundo Queiroz, e um posto de saúde com enfermeira residente. Médico mesmo, porém, só uma vez por mês. “Se tivesse médico com mais frequência, já seria ótimo”, diz Queiroz. “Todo lugar tem suas dificuldades”, avalia Ditinho. “Na cidade tem gente que morre dentro do hospital, não tem? Aqui ninguém nunca morreu por falta de transporte.”

“Do jeito que está, tá ótimo. Todo mundo aqui vive muito bem, vive feliz” disse o pastor Benedito Corrêa dos Santos Neto. “Não tem violência, não tem crime. O pessoal dorme na praia, deixa a porta de casa aberta, sem problema nenhum.”

Para o coordenador de gerenciamento costeiro do Estado de São Paulo, Luiz Roberto Numa de Oliveira, há uma clara discrepância entre o que propõe a prefeitura de Ilhabela e o que desejam os moradores tradicionais das praias. “Os caiçaras são definitivamente contra a urbanização”, disse Oliveira ao Estado. Ele passou os últimos dois dias visitando as comunidades de Castelhanos e do Bonete, por iniciativa própria, para informá-las sobre as diferentes propostas e ouvir suas opiniões à respeito. “Eles estão satisfeitos com a vida que levam e querem que continue assim”, resume Oliveira. “Há uma expectativa muito grande que a prefeitura abra negociações para rever o zoneamento.”

* O texto acima é um resumo pessoal da matéria escrita pelo repórter científico Herton Escobar ao Estadão. Recomendamos a leitura do texto oficial na íntegra no link  ao final desse post [2]




Opinião Entre Serras: O "desenvolvimentismo" na pele de cordeiro

Os caiçaras não foram consultados em nenhum momento, e a prefeitura afirma que a proposta trará benfeitorias aos mesmos. Sem consultá-los? Como julgar e decretar o que é bom para o outro sem ouvi-lo antes? O que se espera agora é a audiência pública que acontecerá no dia 12 de Agosto, onde os próprios caiçaras possam decidir se a proposta segue em frente ou não.

Saneamento básico e eletricidade é direito da comunidade, seja ela decretada zona rural, urbana ou o que for. Usar a mudança de nomenclatura na lei para dizer que só então a prefeitura pode trazer benfeitorias para a comunidade é um argumento muito fraco. O mesmo raciocino para o argumento da regularização das ocupações: não pe necessário mudar a área para Z4 (urbana); o caminho é avaliar um modo de conseguir fazer a regularização na própria Z2 (rural).




Se essa necessidade de mudança de zoneamento tivesse nascido no seio da comunidade caiçara, seria de se levar em conta. Mas não foi o caso, e precisamos estar atentos aos interesses imobiliários escusos na proposta. Difícil acreditar que a Prefeitura e outros interessados não se atenham mais ao potencial econômico de curto prazo do que na preservação do patrimônio cultural e natural típico da região. Isso já aconteceu e vem acontecendo de forma sistemática até hoje (vide a "Campos do Jordanização" da Mantiqueira). E para confundir a opinião pública é comum ainda usarem a alcunha de "turismo ecológico" como propaganda para o que fazem. É o que ocorre grande parte do litoral norte: Praias cheias de pessoas que consomem o turismo - ou um pseudo-ecoturismo - mas não o vivem e experienciam de fato. Consomem sua cerveja, seus confortos, suas comodidades da cidade, mas não experimentam a simplicidade e os costumes locais. Consomem os recursos naturais do local além do que a natureza consegue repor.

"As instituições brasileiras voltadas para a organização e execução das atividades ecoturísticas foram se estruturando a partir de um outro histórico e possuem hoje um caráter empresarial. Sendo assim, funcionam dentro da lógica do mercado e priorizam os aspectos voltados à prestação de serviços e ao retorno econômico em detrimento das prioridades conservacionistas."[3] Os moradores do Bonete e do Castelhanos sabem disso, e por isso se manifestam contrários à proposta.


Sociedade civil se manifestando contra proposta

"Ecoturismo é a visita responsável a áreas naturais visando preservar o maio ambiente e o bem estar das populações locais. Por "bem estar" compreende-se sua integração ao processo de desenvolvimento econômico sem corromper suas características culturais mais profundas. Afinal, se estes povos ainda vivem tendo a natureza como suporte para manutenção de suas culturas, possivelmente são os únicos a realmente conhecer as formas de sustentabilidade específica daquele ambientes."[4]

Todo desenvolvimento tem um custo. Se esse desenvolvimento vir acompanhado por casas de luxo, hotéis e outros empreendimentos imobiliários, quem vai pagar toda a parcela mais cara desse custo será a cultura caiçara, o ecossistema nativo e os verdadeiros ecosturistas.




[1] http://www.ambiente.sp.gov.br/consema/audiencias-publicas/edital-de-convocacao-da-audiencia-publica/

[2] http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/prefeitura-de-ilhabela-propoe-transformar-praias-do-bonete-e-castelhanos-em-areas-urbanas/

[3] Rita Mendonça e Zysman Neiman; 2002


[4] Idem
Leia mais...

Fim da estrada para a Onça Pintada?


A população de Onça Pintada no Parque Nacional do Iguaçu - um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica - caiu drasticamente de 180 para 18 indivíduos nos últimos anos. Enquanto isso, políticos estão às portas de aprovar um projeto de reabertura da Estrada do Colono que corta o parque ao meio e pode acelerar impactos ambientais de curto e longo prazo - entre eles, a extinção da onça. Saiba como você pode ajudar a reverter esse processo.



90% a menos

O resultado de um estudo divulgado no último mês é alarmante: a população de Onças Pintadas no Parque Nacional do Iguaçu, maior remanescente da Floresta Estacional Semi-decidual do país, teve uma queda de 90% nos últimos anos [1]. São várias as causas para essa redução (link); entre elas está o atropelamento de animais nas estradas vizinhas ou no interior do parque.   

Macho atropelado em estrada no PN do Iguaçu

Para piorar este cenário, o deputado federal ruralista Assis do Couto (PT-PR)  lançou o projeto de reabertura da Estrada do Colono; antiga estrada de 17 km que cortava a unidade de conservação entre Serranópolis do Iguaçu, no oeste, e Capanema, no sudoeste do Paraná, e que foi fechada em 2003 por motivos de preservação do parque.
Esse projeto ganhou força muito rápido e deve passar por discussão no plenário da Câmera Federal e no Senado nos próximos dias.


Um argumento de "amigo da onça"

Apropriando-se errôneamente do conceito de "Estrada Ecológica" [2], o deputado e defensores afirmam que a Estrada do Colono, se bem fiscalizada, servirá como apoio à preservação do parque. Conversa para boi dormir. Conforme afirmou o secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Eduardo Cheida, “ao abrir a estrada, estamos criando mais uma demanda para o precário sistema de gestão das unidades de conservação”.

Estrada do Colono

 A verdade é que a sua reabertura possibilitaria um acesso muito mais rápido entre os lados opostos do parque; e por isso acaba conquistando muitos simpatizantes na região, principalmente aqueles envolvidos em atividades econômicas como o agronegócio, o transportes e o comércio de mercadorias (muitos deles políticos). A estrada também beneficiaria as obras da grande Usina do Baixo Iguaçu, nas proximidades do parque. Todos os interesses bem amarrados. Como contra-argumento, seus defensores acusam os pesquisadores, os ambientalistas e grande parte da opinião pública de quererem evitar o progresso econômico da região.  


Concordamos que há muito o que ser discutido ainda, de forma a oferecer melhores alternativas para as pessoas da região. Mas sabemos que esse "progresso" virá as custas de muito impacto ambiental [3], e pode acelerar o fim das onças no local (já está previsto para menos de 80 anos). A extinção do principal predador do ecossistema causaria um desequilíbrio em efeito dominó, com reflexos não apenas na fauna quanto na flora. Um projeto desses não pode ser aprovado assim, de uma hora para outra, sem muita discussão e consenso. Usando as palavras da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, "sou frontalmente contra a reabertura. Isso é inaceitável. Não é preciso reabrir a estrada para promover o desenvolvimento sustentável no Paraná. É possível buscar alternativas para os municípios que estão no entorno do parque, mas não com a destruição da reserva”.


Você pode ajudar

Há cientistas e voluntários correndo contra o tempo para reverter o processo de diminuição populacional de grandes mamíferos na região.
Você também pode ajudar. Participe da petição encabeçada pela SOS Mata Atlântica contra a reabertura da estrada. Segue o link:


Não aceite explicações fajutas de políticos que escondem interesses financeiros numa roupagem ecológica. A extinção de um exemplar tão importante de nossa fauna é uma estrada de mão única, um caminho sem volta.








http://www.oeco.org.br/convidados-lista/27165-estrada-do-colono-nao-se-habilita-a-estrada-parque

[3] Facilidade de acesso para infratores, circulação de animais carregados pelos veículos que levariam doenças às espécies nativas, poluição, atropelamentos, infestação de plantas oportunistas (invasão biológica), incêndios clandestinos ou acidentais, entre outros.

[4] Mais informações:
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/meio-ambiente/conteudo.phtml?id=1370377&tit=Volta-da-Estrada-do-Colono-implica-em-multiplas-ameacas-ambientais

Leia mais...

Muriquis - O Povo Manso da Floresta

O Muriqui, o maior primata (não humano) das Américas - habitante endêmico da Mata Atlântica e candidato a mascote das Olimpíadas 2016 - ainda é um ilustre desconhecido e corre o risco de desaparecer de nossas florestas antes de ganhar a fama que merece . Enquanto pesquisadores lutam abnegadamente para impedir que isso aconteça,  nós podemos usar as mídias sociais em prol da divulgação e preservação desse carismático animal.



Muriqui, muriqui, tu estavas aqui
Bem antes do europeu, bem antes do progresso
Teu alegre saltar entre ramos e ventos
Vai ficando tão longe. Onde estás, muriqui?
És apenas lembrança
De um tempo que eu não vi
Carlos Drummond de Andrade  ("Mata Atlântica")


O Povo Manso da Floresta

Também conhecido como Mono-Carvoeiro devido às manchas pretas no rosto e nas mãos, o Muriqui é um antigo habitante de nossas Serras do Mar e da Mantiqueira. É filho da Mata Atlântica e apenas nela habita. No passado, as diversas tribos de índios da região já se encantavam com esse macaco tão peculiar - acredita-se que o nome Muriqui seja a versão tupi para "Povo manso da floresta" [1]. Ainda que essa etimologia não esteja correta, nenhuma definição seria mais justa para a espécie: o Muriqui é um dos animais com hábitos mais pacíficos e solidários que existem, não possuindo o prática de competir entre si nem por alimentos nem por fêmeas. E olha que no mundo primata - e aqui incluo o bicho homem - esse comportamento é muito  incomum.   Nas palavras do escritor Renato Costa:

"O Muriqui é uma espécie singular pela sua vida grupal pacífica, onde um grau de disputa mais elevado jamais ocorre. São animais extremamente carinhosos uns com os outros, sendo comum ver esses animais tocando-se ou se abraçando por poucos ou vários minutos, formando, às vezes, cachos onde vários deles se abraçam ao mesmo tempo, pendurados pelas caudas. A hierarquia entre eles não é baseada nem na força nem na idade, como em outras espécies, mas no grau de afetividade de que cada indivíduo é objeto. Fêmeas e machos têm peso e tamanho semelhantes, inexistindo qualquer forma de agressividade ou competição no comportamento sexual, que se mostra livre e respeitoso. (...) Sem terem que usar qualquer estimulante ou psicotrópico, eles lograram formar a pura sociedade alternativa que a raça humana idealizou e jamais conseguiu realizar." [2]

Não quer dizer que não haja violência alguma entre esses animais; mas são eventos muito raros e pontuais. A sua índole é mesmo solidária. Por exemplo: quando um bando de machos Muriquis encontra uma árvore carregada com os melhores frutos, emitem vocalizações para chamar seus outros companheiros espalhados pela floresta.


Frente a todas essas louváveis características, a prática do abraço como um forma de interação social é icônica da sociedade muriqui. Eles se abraçam quando estão felizes, quando estão brincando, quando se sentem ameaçados, quando está frio... Costumam se abraçar em grupo, pendurados pelas caudas, num grande abraço coletivo. 





Semeador de Pomares

Os Muriquis têm hábitos diurnos e arborícolas, podendo deslocar-se rapidamente pela mata devido às suas adaptações morfológicas: a cauda preensil, os braços longos e as mãos em forma de gancho. A sua agilidade ao se deslocar pelas árvores é tanta que meu amigo Luiz Fernando Priante , líder dos Trilheiros do Valle, apelidou um dos bandos de Muriquis em São Francisco Xavier-SP  de "Kamikazes",  por suas temerárias acrobacias e saltos desenvoltos de galho em galho.

Vivendo em bandos que podem chegar até 50 indivíduos, eles passam grande parte do tempo descansando no alto das árvores ou se alimentando e deslocando em busca de comida. Descem esporadicamente ao solo para beber água, atravessar clareiras ou buscar bons frutos que caíram.

O Muriqui depende da mata; a mata depende do Muriqui. Sua presença em uma região serve como termômetro para a qualidade ambiental da área. Se há Muriqui, é porque o ecossistema está saudável.  Por engolir os frutos com sementes inteiras e defecá-las praticamente intactas, esse primata é um grande dispersor de sementes com boas chances de germinação. Na verdade, o Muriqui cria o seu próprio pomar e passa seus dias locomovendo-se num circuito de árvores que ele mesmo semeou. Muitos outras espécies de animais e flora se beneficiam com ação desse jardineiro. O fim dos Muriquis resultaria no enfraquecimento genético das matas e no sumiço do restante da fauna nativa.




Onde são encontrados

Hoje se reconhece duas espécies de Muriquis; a Serra da Mantiqueira age como uma barreira geográfica entre elas. São:

Muriqui-do-Norte (Brachyteles hypoxanthus): Se diferencia do Muriqui-do-Sul por apresentar despigmentação nas regiões da face e períneo e por possuir um polegar vestigial. Habita o ecossistema Floresta Estacional Semidecidual, em fragmentos florestais situados no estado de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo.  Vive em bandos de tamanhos bastante variáveis, podendo chegar até 40 indivíduos.  População total de cerca de 500 a 900 indivíduos, o que o coloca na lista de "criticamente em perigo de extinção". É uma das espécies de primatas mais ameaçadas do mundo.

Muriqui-do-Norte

Muriqui-do-Sul (Brachyteles arachnoides): Se diferencia do Muriqui-do-Norte por não apresentar despigmentação nas regiões da face e do períneo e por não possuir um polegar vestigial. Habita o ecossistema Floresta Ombrófila Densa da região costeira e a Floresta Estacional Semidecidual do interior dos Estados de São Paulo,  sul do Rio de Janeiro e nordeste do Paraná. População estimada de 1.158 indivíduos, o que o coloca na lista de espécie "em perigo de extinção".   
Em São Francisco Xavier-SP, na Serra da Mantiqueira, o Muriqui-do-Sul tornou-se símbolo do distrito, apesar de habitar um área sem nenhuma proteção legal, contando apenas com a consciência ambiental dos proprietários particulares e da população local para perpetuação de sua existência.

Muriqui-do-Sul



A uma braçada da extinção

Infelizmente a existência desse primata pacífico e semeador está nas mãos de outro primata que não compartilha dessas características na mesma intensidade. A destruição da Mata Atlântica, a alta fragmentação das florestas, a intensa caça ilegal e os baixos investimentos em vigilância e fiscalização das áreas protegidas, estão levando a espécie à extinção em um futuro muito próximo. E todos esses fatores são frutos da ação humana. Para agravar o processo, a espécie possui uma maturação sexual tardia e baixos índices de reprodução, o que não permite uma reposição populacional na mesma proporção.

Os Muriquis dependem muito da educação ambiental da população local no sentido de abolir o habito de sua caça, que ainda é muito intensa nos dias de hoje. Dependem, também, da consciência ambiental dos proprietários rurais para que esses não avancem com o desmatamento floresta adentro. E dependem da sociedade como um todo, seja unindo esforços com projetos que já estão em andamento, seja divulgando-os pelas mídias sociais. Abaixo listo os principais projetos em prol da conservação do Muriqui.



Esforços de conservação

Há alguns esforços de conservação do Muriqui; esses muitas vezes são esforços abnegados e  apaixonados, pois geralmente lutam com pouco investimento. Todos eles se sustentam nos seguintes pilares de atuação: Proteção do habitat natural dos Muriquis, correta recuperação de áreas degradadas (reflorestamento), criação de corredores ecológicos, "refaunização" bem planejada da floresta e educação ambiental da população. Os internautas podem ajudar divulgando-os. Seguem abaixo (com links):


Projeto que conta com 10 metas e 54 ações diversas, que vão desde contagem das populações de Muriquis, fiscalização de florestas para protegê-los de caçadores à educação ambiental.

30 pesquisadores de diversas disciplinas com a missão de mapear, georreferenciar, quantificar e estudar o comportamento do Muriqui-do-Sul no Estado do Rio de Janeiro.


Visa tornar o Muriqui mundialmente conhecido com intuito de conseguir mais fundos para sua conservação.

Busca propor uma estratégia de conservação para preservação da população de do Muriquis-do-Norte presente no Espírito Santo.

Responsável por pesquisas e proteção  da população do primata que habita parte da Serra dos Órgãos, no Estado do Rio de Janeiro.

Possui a missão de organizar as atividades de pesquisa e conservação do Muriqui-do-Sul no Estado de São Paulo.

Projeto Muriquis do Sossego, no Estado de Minas Gerais
Estuda o atual estado de conservação da população de Muriquis-do-norte presente na Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Sossego e em remanescentes da região do Corredor Ecológico Caratinga, visando contribuir com planos de ação para conservação da espécie.

Fundada por iniciativa da família Abdala, cuida de uma RPPN em Minas Gerais de cerca de 900ha onde mora a maior população de Muriquis-do-Norte. Promove preservação, educação ambiental e muita pesquisa, que nos leva à história abaixo:


A Antropóloga Americana e os Muriquis de Minas Gerais

Karen Strier, no inicio das pesquisas
A antropóloga americana Karen Strier é para os Muriquis-do-Norte o que uma Jane Goodall é para os Chimpanzés e uma Dian Fossey foi para os Gorilas.

A pesquisadora chegou ao Brasil há 30 anos para estudar esses primatas no município mineiro de Caratinga. Foi uma pioneira. Graças aos seus estudos e esforços, hoje a população local de Muriquis quadruplicou.

Tudo isso só foi possível, também, devido ao apoio, à consciência ambiental e à integridade pessoal de Feliciano Miguel Abdalla e sua família, donos da Fazenda Montes Claros, que transformaram 900ha de sua propriedade em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Essa reserva é hoje administrada pela ONG que eles mesmos criaram (como já foi dito no texto acima).

Os 30 anos de pesquisa de Karen Strier viraram um livro: "Faces in the Forest: The Endagered Muriqui Monkeys of Brazil". É uma pena não estar a venda em livrarias ou na internet. Karen foi, talvez, a primeira humana a quem um Muriqui em ambiente selvagem estendeu seu acolhedor abraço. Isso aconteceu quando um macho de um bando vizinho surgiu próximo ao bando que a pesquisadora estudava. Ele se assustou com ela e tentou afugentá-la. Um bando de Muriquis fêmeas, já acostumadas com a presença da antropóloga, expulsou  o invasor e ofereceu um abraço de conforto para Strier, que teve  de usar muito profissionalismo e responsabilidade para não ceder à tentação de realizar o contato físico com seu amado objeto de estudo. O fato é que, se há uma pessoa que merece esse abraço, esse alguém é ela mesmo.



Mais Muriquis nos próximos posts

Esses nossos cativantes e ameaçados parentes serão assunto para muitos posts daqui para frente no Entre Serras. Há muito o que falar sobre eles e a sua preservação. Já passou do momento de abraçarmos essa causa.

Um abraço de Muriqui para todos, e até o próximo!



[1] Talvez o mais correto seja considerar Muriqui como uma corruptela de Myra-Qui, "gente que se bambaleia, que vai e vem".

[2] "Golfinhos, Papagaios e Muriquis: Três Caminhos Diferentes da Evolução Anímica", Renato Costa, Brasil

[3] Trilheiros do Valle - https://www.facebook.com/TrilheirosDoValle 

Leia mais...