Safári Africano no Cerrado Brasileiro







Acabei de voltar de uma viagem ao Quênia e Tanzânia. Observar os animais africanos em seu habitat natural uma experiência incrível. Principalmente por estarem em seu ambiente original, o que nos permite uma vivência genuína. A mesma coisa podemos dizer sobre observar a  fauna brasileira aqui em nosso país.
Porém, logo que cheguei de viagem umas das primeiras notícias que li me deixou atônito: estão querendo criar um verdadeiro safári com animais africanos em pleno cerrado brasileiro; especificamente no Jalapão, estado do Tocantins. Sério. Para entender a dimensão da proposta, segue a lista dos animas que pretendem importar: 150 antílopes (divididos entre kundus, impalas, elands e waterbucks);  34 rinocerontes (brancos e pretos); 30 zebras; 30 hienas; 28 elefantes; 26 girafas; 22 leões; 20 búfalos; 20 hipopótamos; 20 cães selvagens; 10 chitas e 10 leopardos. 

Paisagem do Jalapão

O projeto, que possui o nome de Out of Africa (alusão ao belíssimo filme estrelado por Meryl Streep e Robert Redford), é encabeçado pela empresa OOAB ‐ Conservação de Animais Silvestres e Proteção do Meio Ambiente S.A (esse nome é uma piada) sediada em Palmas. Prevê um investimento de R$ 350 milhões, que conta com um complexo hoteleiro de 3 resorts de luxo e uma área natural de 1.000 km2, que corresponde a um retângulo de terra de 20 por 50 kms. Os animais seriam introduzidos nessa área sem qualquer manejo ambiental, e passariam a conviver com onças pintadas e lobos guarás entre outros animais existentes ali.

Segue o vídeo promocional (cheio de falhas):


O mais incrível é que esse projeto maluco ganhou força política e apoio econômico no Tocantins; é óbvio que por trás dessa roupagem de proteção de animais ameaçados de extinção está o interesse pelo potencial turístico do projeto e o dinheiro que ele geraria para seus (ir)responsáveis ‐ os empresários e políticos envolvidos.

O projeto esbanja contradições e riscos. Abaixo pontuo alguns deles:
 
1‐ Onde é que fica a nossa própria fauna e flora nessa história? O cerrado no Jalapão é um ecossistema frágil e as espécies que ali vivem estabelecem um delicado equilíbrio entre si. Ele não agüentaria essa grosseira introdução de grandes espécies exóticas. Onde está a valorização de nossas espécies nacionais? É óbvio que para tentar salvar espécies africanas esse projeto atingirá as nossas que já vivem um perigo maior de extinção.



2‐ Alguém está levando em conta as diferenças geológicas e evolutivas entre o Cerrado e a Savana? A separação entre o Brasil e África ocorreu há mais de 60 milhões de anos. Muita água já rolou nessa história. Apesar de se assemelharem numa análise puramente visual e superficial, os dois ecossistemas possuem milhões de diferenças. Por exemplo, nossa flora não é a mesma. Como os animais herbívoros importados se alimentarão? As espécies de vegetais serão importadas também? E mesmo se forem, a composição de nosso solo não é a mesma da Savana e elas possivelmente não se adaptariam. Nem os recursos hídricos são os mesmos.

 

3‐ E se o projeto falir algum tempo depois de sua inauguração. O que será dos animais de lá? Mandarão abater todos os animais que antes pretendiam proteger? E mesmo se não falir, será que esses idealizadores são ignorantes o suficiente para imaginar que tantos animais desse porte, acostumados a longas migrações sazonais nas savanas africanas, ficarão comportados em perfeito equilíbrio natural dentro das cercas que criamos para eles? Não levam em conta fatores como seca, superpopulação, fuga de animais, acidentes com humanos? A verdade é que projeto Out of África está mais próximo de se tornar um roteiro de Jurassic Park.


4‐ E enquanto se encontra somas milionárias para um projeto sem pé nem cabeça desses, o dinheiro reservado para criação de novas áreas de proteção ambiental no Tocantins diminui. Parece que a valorização de nossa fauna está apenas em colocar alguns poucos exemplares estampados em nossa moeda nacional.


O fato é que a experiência de um safári é interessante na África, e ajuda a preservar o que a natureza criou com tanto trabalho por lá. Assim como ver nossos animais aqui no Brasil é uma experiência tão impactante quanto. Posso dizer por conhecimento de causa. Criar mais uma unidade de conservação na África para proteger seus animais é louvável; trazê‐los para o Brasil à custo da destruição de nosso ecossistema, é inaceitável. Mesmo que o empreendimento dê certo. O que eu, e toda uma comunidade científica, duvidamos que aconteça.

Técnicos, ativistas e o público em geral se levantaram contra essa proposta e organizaram um abaixo assinado, que trago no link abaixo:




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Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

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