Pico do Corcovado - Ubatuba/SP

O ponto culminante da Serra do Mar paulista

Dados Gerais
Onde fica: Região sul de Ubatuba, acesso pelo Bairro do Corcovado
Atividade: Motanhismo
Nível: Difícil




Caderno de Viagem
  

Ponto culminante da Serra do Mar paulista, o Corcovado, com seus 1.168 metros de altura, é um pico misterioso e imponente que se sobressai na paisagem do município de Ubatuba, causando fascínio e curiosidade naqueles que passam pela Baía da Fortaleza. Há duas trilhas por dentro da mata que levam até o seu cume. A mais longa, porém mais amena, se inicia no Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar, em Natividade da Serra; a caminhada de 17 km é feita do continente em direção ao mar e só pode ser realizada com o acompanhamento de um guia do parque. Já a trilha mais curta, porém mais acentuada e rigorosa, se inicia no Bairro do Corcovado, região Sul de Ubatuba. Nesta você caminha de costas para o mar em direção ao continente, encarando a muralha da serra de frente. São 1.000 metros de desnível durante toda a trilha, que se assemelha a uma interminável escadaria de terra e raízes. Não é para iniciantes. Mas não necessita do acompanhamento de guia. Escolhemos essa via, tanto pela dificuldade quanto pela liberdade.



 

O Bairro do Corcovado fica à 25 km da cidade de Ubatuba sentido sul, em direção a Caraguatatuba. Já para quem vem de Caraguá, fica no KM 68,5. Sua entrada fica do lado oposto à entrada da Praia Dura, na Rodovia Rio-Santos. Dali em diante é só seguir as placas indicando Pico do Corcovado.  Eu e o Gustavo seguimos para lá. A estrada acabou logo em frente a um campo de futebol. Ali pedimos auxílio para um morador do local muito prestativo, de origem japonesa, que guiou pelo início confuso da trilha até um riacho pedregoso de águas cristalinas. Essa ajuda foi muito importante, pois há índios guaranis ali na região que abrem suas picadas pela floresta em buscas de espécimes como a palmeira Juçara, o que acaba criando um labirinto de caminhos pela mata. Porém, cruzado o riacho as chances de se perder diminuem. A Floresta Atlântica (Floresta Ombrófila Densa) se revela em toda a sua exuberância - árvores muito altas, copas emaranhadas, fachos de luz do sol penetrando a escuridão da mata, sinfonia de pássaros e insetos - um verdadeiro santuário natural. Logo a trilha começa a se inclinar até virar uma subida definitiva. A trilha, então, se torna bem óbvia e as chances de perder-se diminuem considerávelmente. 

Haja pernas
A subida se dá, na maior parte do tempo, dentro da mata fechada, o que impossibilita a vista cada vez mais panorâmica do litoral. Antes da metade do percurso, poré, há um aglomerado de rochas conhecido como Capelinha - o primeiro lugar de onde se pode vislumbrar uma prévia do que nos aguarda lá do alto do pico. A constante inclinação da trilha é o que torna essa caminhada um ótimo lugar para se treinar potência muscular e resistência física. Carregando as pesadas mochilas com  equipamentos de camping nas costas e se equilibrando com a maquina fotográfica, tem-se a dificuldade aumentada. O suor refrescante escorrendo no rosto quente vinha nos lembrar que graças à floresta a temperatura ainda se mantinha agradável; não fosse ela estaríamos sofrendo de insolação. O canto metálico da Araponga  (como se um ferreiro estivesse forjando uma espada a marteladas contra uma bigorna) nos acompanhou durante grande parte da subida, vindo das profundezas da mata. Em determinados momentos a trilha se torna uma verdadeira voçoroca - erosão gradativa onde se abrem buracos na terra devido à supressão da vegetação no local. O solo só não desmorona pois está sustentado por raízes das árvores que erguem ao lado da trilha, que também servem como degraus. Nos fez pensar sobre a precariedade da proteção do local, a falta de infra-estrutura dos parques naturais brasileiros e a necessidade de um maior apoio ao ecoturismo de Ubatuba.     

Na crista da Serra do Mar
Encontramos dois pontos com água durante o percurso, mas é recomendável trazer pelo menos de 2 a 3 litros com você.  Já próximo ao pico, cruzamos uma bambuzal fechado onde alguma planta nos causou arranhões, urticárias. Começavam com um forte ardor na pele e logo em seguida marcas de arranhões se faziam visíveis em todo braço (no dia seguinte parecia que havíamos travado uma briga com um bando de gatos). Desembocamos em uma clareira com várias epífitas - bromélias e gravatás - no solo e nas árvores. Ali a trilha não continuava mais reta, e sim dobrava à direita em uma trilha sinuosa e bem mais branda. Depois de tanta subida, era um alívio. Estávamos percorrendo a crista fina da serra; um lugar perigoso, pois a vegetação densa esconde verdadeiros penhascos a espera de um passo em falso fora da trilha. Foi com admiração que fomos surpreendidos por uma belíssima visão do pico logo a nossa frente, uma enorme rocha, soberana. Bem maior do que se imagina quando se olha lá de baixo, o que prova o quão alto ela se encontra. Animados com essa visão, seguimos o caminho até começarmos a ascender o pico pelo seu dorso rochoso. Se não fossem as raízes de pequenas árvores que se emaranham entre as rochas, a subida seria muito mais difícil e até mesmo perigosa. O terreno voltou a ficar bastante inclinado, mas como se tem a noção de estar próximo ao cume somos tomados por uma motivação e energia que antes estavam escondidas sob o cansaço.  Atingimos o pico precisando de água; esta pode ser encontrada seguindo adiante na trilha que passa pelo acampamento no topo do pico e descendo alguns metros mata adentro. Ali vive um riacho de águas cristalinas onde os aventureiros podem brindar sua conquista.




Os cavalos brancos
A beleza da vista panorâmica da Serra do Mar do litoral norte paulista é arrebatadora. Parado no alto do pico, de costas para o continente, à sua frente você pode admirar a Baía da Fortaleza (Praia Dura, Praia Vermelha do Sul, Praia da Fortaleza, entre outras) e a Ilha do Mar Virado; à sua direita as praias de Caraguatatuba e São Sebastião, com a enorme Ilha Bela despontando-se do mar. À sua esquerda estão as praias que seguem para o norte de Ubatuba em direção a Paraty. Às suas costas o Parque Estadual da Serra do Mar, com suas montanhas cobertas de Mata Atlântica nas quais o sol vem se deitar todas as tardes. E foi durante o entardecer que surgiram os chamados Cavalos Brancos, galopando sobre as montanhas, livres como o vento, gigantes e selvagens. É a cerração, a camada de nuvens baixas que se aproxima assumindo a forma desses belos animais em pleno galope, envolvendo-nos por completo no fim. Toda a vista se fechou, enxergávamos apenas a palma de nossa mão à frente. O mistério se impôs e a poesia permaneceu no lugar. Conforme o poente se tornava mais forte, o nevoeiro que nos envolvia, antes branco, ganhava cores amareladas e avermelhadas, impossíveis de retratar. Estávamos dentro da luz. Durou pouco. Os cavalos brancos se foram - rápidos como vieram - com a chegada da escuridão, pudemos observar as luzes das cidades de Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião que margeavam o mar. Outros trechos permaneciam em total escuridão. "A Lua traçou no céu um compasso"; eu e o Gustavo, de espectadores, assistíamos ao movimento do astro dormindo com o rosto fora da barraca - fazia um tempo agradável, apesar da altura do pico. O sono se misturou com a luz das estrelas e só foi interrompido com o lusco-fusco da manhã. O nascente já se anunciava detrás das montanhas que bordam o litoral. Concordamos ser uma das cenas mais belas que presenciamos até esse dia em nossas vidas - o horizontes de montanhas, com várias tonalidades; mais azuis quanto maior a distância. A neblina cobria as regiões mais baixas da paisagem, por sobre os rios, cidades e vales. Uma pintura de Cézanne.  Agradecemos a natureza pelo espetáculo e iniciamos nossa descida quase ininterrupta. Botas confortáveis são obrigatórias aqui.



O encontro com os índios

Já de volta ao sopé da montanha, em plena Floresta Atlântica luxuriante e ruidosa, tivemos um encontro inevitável na trilha estreita: dois índios guaranis fortes, parecendo talhados em rocha, vinham no sentido oposto com facões à mão. Vinham, provavelmente, fazer uma atividade ilegal - o corte da ameaçada palmeira Juçara e retirada de seu palmito. Os frutos da palmeira Juçara, idênticos ao Açaí, são responsáveis pela manutenção da vida selvagem na Floresta Atlântica; porém, o corte insustentável tem causado  sua extinção e ameaçado o ecossistema. Os índios guaranis, por sua vez, habitam a serra desde a década de 60, mas estão perdendo territórios e caça com a expansão imobiliária, populacional e poluidora. Para fugir à fome e manter a cultura silvestre restam-lhes alternativas de lucro imediato - ainda que pequeno - como a extração do palmito para alimentar o crescente cosumo urbano por esse produto. Há ações de preservação e inclusão sendo tomadas ultimamente em Ubatuba, que buscam incetivar o cultivo do fruto em detrimento do corte da plameira. Sobre isso e sobre os índios guaranis, falarei em posts futuros. O fato é que passamos em silêncio receoso pelos índios, mas sem maiores problemas.  No final da trilha, que desembocou no campo de futebol, duas comunidades caiçaras se enfrentavam acirradamente no calor do meio dia de Domingo. Pegamos o carro e seguimos para Praia Dura, uma de minhas favoritas, para um banho revigorante em suas águas.  



Nome do Autor

Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

7 comentários:

  1. nao sei como vim parar neste blog, mas adorei a descriçao e os detalhes, com certeza continuarei acompanhando suas trilhas. obrigada por compartilhá-las.

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  2. Relato maravilhoso, transmitiu a sensação de estar em um lugar paradisíaco. Obrigado!

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  3. que redaçao maravilhosa abraço a todos

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. visual lindo tmbm souberam escolher o passeio quero ver aqui redaçoes sobre pico do marins em piquet sp e pedra da macela em paraty rj ...to querendo demais já né rs abraço a todos

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  6. Telefone guias locais?? Obrigado... cleide

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