Mata Atlântica: Ecossistema 1 - A Floresta Atlântica


Os ventos úmidos que sopram do Oceano Atlântico em direção ao interior do Brasil  encontram uma grande barreira ao longo do litoral: a Serra do Mar. Ao subirem essa serra, esses ventos resfriam-se e se acumulam; o excesso condensa-se e se precipita em forma de nevoeiro ou chuvas. Assim esses ambientes contém bastante umidade. Este fato, aliado ao clima tropical - onde há insolação constante durante todo o ano - é o que permite essa região sustentar sua luxuriante floresta costeira, densa, com árvores de 20 a 40 metros de altura - a chamada Floresta Atlântica, um dos ecossistemas da Mata Atlântica.

A Floresta Atlântica, científicamente conhecida como Floresta Ombrófila Densa (Ombrófila = Amiga das Chuvas), é grandiosa e heterogênea. Apresenta árvores de várias espécies com folhas largas e perenes, adaptadas para resistir tanto a períodos de calor extremo quanto aos de muita umidade. Abriga grande diversidade de epífitas (plantas aéreas), como Bromélias, Orquídeas e Cipós, que se hospedam nas imponetes árvores. Essa Floresta é mãe de várias nascentes que originam a maiorira das Bacias Hidrográficas Brasileiras. Devido aos declives dos terrenos, possui incontáveis cachoeiras realçando os encantos escondidos em seu interior.


Foi o primeiro ecossistema brasileiro a sofrer pressão com as ações humanas, logo no Brasil Colônia. Tanto que no Nordeste quase que se extinguiu totalmente. Os poucos remanescentes atuais desse ecossistema sobrevieram graças às dificuldades do terreno acidentado, que os mantiveram isolados, e graças a outras coinscidências históricas e sociais sobre as quais dedicarei um próximo post.  


Localização


As principais áreas preservadas se encontram em parques nacionais, como o de Superagüi (PR), de Itatiaia (MG, RJ), da Serra da Bocaina (SP, RJ), do Monte Pascoal e da Chapada Diamantina (ambos na BA) e do Iguaçu (PR); em parques estaduais como os da Ilha do Cardoso, da Ilha de São Sebastião, da Ilha Anchieta e da Serra do Mar, do Vale do Ribeira, da Serra do Japi (todos em SP), do Desengano (RJ) e nas estações ecológicas de Tapacurá (PE), Caratinga (MG), Poço das Antas (RJ) e Juréia (SP).


Um rappel pelos estratos da floresta

Dossel
Vamos imaginar que você é um cientista explorando a Floresta Atlântica. Um helicóptero o deixou no topo da floresta e você fará um rappel do alto de suas copas até o solo para registrar a diversidade da floresta. Nesse percurso você observará que a floresta possui diferentes estratos, ou camadas, que podem ser resumidas em 3: um arbóreo, um arbustivo e outro herbáceo. Em cada um desses estratos há espécie de vegetais e animais específicos em estreita relação de equilíbrio e interdependência - o que de forma alguma impede que essas espécies transitem nos demais estrados.  

Você inicia, então, os preparativos de seu rappel lá do alto. Olhando para baixo, percebe que o tronco das árvores, normalmente lisos desde lá do solo, só se ramificam bem no alto, formando a copa. As copas das árvores mais altas e adultas, que necessitam receber grande quantidade de luz, tocam umas nas outras formando uma malha de folhas e galhos. Devido a alta densidade da vegetação, os ramos nas copas das árvores se entrelaçam e as plantas assim se suportam reciprocamente e mesmo que os troncos sejam cortados a árvore não cai por estar presa à copa. Esta parte é a camada superior da floresta, um estrato arbóreo conhecido como Dossel, onde você está agora. O Bugio, o Muriqui, o Tucano e a Harpia são exemplos de animais que costumam ocupar esse estrato. Bromélias e Orquídeas que necessitam de mais luz também estão se fazem presentes.

Sub-bosque
Fugindo à constante irradiação do sol tropical no dossel, você desce alguns metros, parando no meio do caminho para o solo. Percebe que a luz agora é mais reduzida devido ao bloqueio da vegetação das copas. Apenas alguns fachos de luz solar atravessam os galhos, tingindo partes do interior da floresta de um verde brilhoso, mantendo o resto na sombra, como a um quadro de Caravaggio. Essa camada em que você se encontra é chamada de sub-bosque - um estrato arbustivo.  Aqui nascem e crescem pequenas árvores, arbustos, bambus, samambaias gigantes, liquens e outras espécies que toleram menor quantidade de luz. Você repara, então, que essas árvores menores desenvolveram grande área foliar a fim de captar o máximo de luminosidade possível nessas condições. Há até mesmo espécies que passam toda a vida sombreadas e, mesmo assim, são capazes de produzir flores, frutos e sementes. Muitas árvores são esguias, sem ramos, a não ser na parte superior. É que devido ao sombreamento, os ramos inferiores foram eliminados.

Tanto aqui quanto no dossel, as folhas são muitas vezes brilhantes, recobertas por cera, tendo superfícies lisas e pontas em forma de goteira. Todas essas características facilitam o escoamento da água das chuvas impedindo sua permanência prolongada, o que seria inconveniente sobre a superfície foliar porque pode obstruir estômatos, além de servir para, em suas gotas, se desenvolverem microorganismos que podem causar doenças.

Estando no sub-bosque, você passa a escutar uma sinfonia de belos cantos próximos a você. É que a maioria das espécies de aves habita essa camada da floresta; são elas Arapongas, Saíras, Graúnas, Sabiás, Tiês, entre muitas outras. Tanto nos troncos das árvores mais altas do dossel como nos das mais baixas do sub-bosque, você fica impressionado com a presença de uma diversidade de espécies de cipós, bromélias,  orquídeas, cactáceas, gravatrás, ou seja, epífitas - plantas aéreas- perfeitamente adaptadas a vida longe do solo. Como elas não mantém contato com o solo muitas vezes possuem problemas de nutrição. Nada retiram das árvores, não a prejudicam; apenas buscam uma maior luminosidade e ainda retribuem o abrigo atraindo animais polinizadores (como o beija-flor que agora capta o seu olhar). Essa interação entre árvore e epífita é um exemplo de simbiose. Como as águas das chuvas nos troncos escoam rapidamente, as epífitas tiveram que se adaptar a secas periódicas, mesmo vivendo num ambiente úmido. Por isso as folhas da Bromélia que você observa atentamente formam um reservatório de água. Nesses reservatórios podem viver algas, protozoários, vermes e lesmas, constituindo uma pequena comunidade. Você se assusta com uma perereca que salta para fora da bromélia na qual acabou de depositar seus ovos. Já as orquídeas e cactáceas guardam a água em suas suculentas folhas.





Raízes Tabulares
Chegando próximo ao solo, você finalmente conhece a terceira e última camada - o estrato herbáceo. Antes de por o pé no chão da mata, você se apóia numa grande raiz de uma figueira. Nesses matas são comuns as raízes tabulares e as raízes de escoras, que são dispositivos para se coletar oxigênio do ar, uma vez que a taxa de oxigênio do solo é pequena. Além disso, solos muito úmidos como da Floresta Atlântica não proporcionam boa fixação, assim as raízes tabulares aumentam a base de sustentação da planta.

Serrapilheira

Micorrizas
As folhas, os galhos e os troncos das árvores que caem vão se acumulando no chão da floresta e criam um ambiente muito especial, que constitui o habitat de muitos insetos e outros animais , principalmente fungos e bactérias, que são os principais responsáveis pelo processo de decomposição da floresta. Esta camada de materiais em decomposição recebe o nome de serrapilheira. A serapilheira é indispensável para a floresta: ela protege o solo da floresta, evitando erosão e mantendo umidade. O solo úmido absorve melhor a água das chuvas e torna possível a recarga do lençol freático, evitando que as nascentes sequem. Os solos da floresta são, via de regra, pobres em minerais e sua natureza é granítica ou gnáissica. A maior parte dos minerais está contida nas plantas em vez de estar no solo. Como há muita serapilheira que origina abundante húmus, esse material orgânico em constante decomposição é que enriquece o solo da floresta que por sua vez irá nutrir toda a vegetação. Para ajudar nesse processo, alguns fungos, as micorrizas, formam-se junto às raízes das árvores e plantas onde auxiliam na absorção de nutrientes. Fecha-se, assim, o ciclo planta-solo, que explica a manutenção de florestas exuberantes, em solos nem sempre férteis. A reciclagem dos nutrientes é um dos aspectos mais importantes para a existência da floresta.
Plantas saprófitas
No solo você encontra uma colônia de cogumelos aos pés de uma árvore. São uma das espécies das plantas saprófitas evoluídas a ponto de dispensar a clorofila, deixando de fazer a fotossíntese, vivendo a custa de matéria orgânica em decomposição. São plantas que crescem em meio as folhas no chão da floresta. Você observa, também no solo, a presença de bromélias, gravatás e orquídeas desenvolvidas para viver com bem menos luz do que suas parentes lá do dossel.
O chão da floresta é um verdadeiro berçário de plantas recém germinadas ou em vida latente dentro das sementes. Muitas dessas plantas podem passar anos aguardando que uma árvore caia, abrindo uma clareira para que tenham luz suficiente para crescer. Algumas espécies como os Manacás-da-serra e quaresmeiras produzem milhares de minúsculas sementes que o vento carrega e deposita sobre as áreas abertas onde rapidamente crescem fechando as "feridas".



Equilíbrio Tênue

Em todo esse caminho percorrido, você percebeu que na Floresta Atlântica convivem lado a lado desde árvores grandiosas - como Jequitibás, Figueiras e Guapuruvús - até líquens, musgos e delicadas epífitas, num equilíbrio tênue muitas vezes de interdependência. A extinção de uma espécie pode ser extremamente danosa para outras ao redor, principalmente na relação fauna-flora.
Por possuir um solo pobre - onde sua alta fertilidade é devida ao material orgânico constantemente produzido e reciclado pela própria floresta - e por possuir uma topografia bastante acidentada - sendo as raízes das árvores responsáveis por firmar o terreno - a Floresta Atlântica ao ser desmatada tem como resultado terras improdutivas em poucos anos de uso, e deslizamentos e erosões que podem se converter em catástrofes (como a da região serrana do Rio de Janeiro, em 2010). Devido a sua alta instabilidade geológica natural, essas regiões não deveriam nunca ser ocupados por habitações humanas. Além disso, a extinção de uma espécie de planta ou animal pode desencadear um processo de extinção em cadeia de outras espécies, suprimindo gradativamente a riqueza biológica desse frágil ecossistema.
A principal ameaça a esse ecossistema é o desmatamento com finalidade de transformar as áreas remanescentes em espaço para agricultura, pecuária, reflorestamentos e loteamentos.

Dedicaremos dois próximos posts a respeito da fauna e flora desse ecossistema






Nome do Autor

Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

0 comentários:

Postar um comentário