Mata Atlântica: Uma introdução


No planeta terra, a maior parte da biodiversidade se encontra nas regiões de florestas tropicais úmidas. Estas se localizam entre os trópicos de Capricórnio (ao sul) e de Câncer (ao norte). São regiões onde o sol irradia praticamente por igual o ano inteiro, mantendo o clima estável. No mapa ao lado vemos que grande parte dessas florestas se encontram em alguns países como, por exemplo, Indonésia e Laos (Ásia), Papua Nova Guiné (Oceania), República Democrática do Congo, Gabão e Ruanda (África), Costa Rica, Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Suriname e, principalmente, Brasil (América). Em nosso país há dois tipos de floresta tropical úmida: a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica. 


A grande maioria dos cenários que o blog Entre Serras percorre são regiões de Mata Atlântica.  A Mata Atlântica é um bioma brasileiro. Para melhor entender essa afirmação, vale a pena um breve introdução à conceitos básicos:

Bioma é um conjunto de ecossistemas que possuem certo nível de homogeneidade. Ecossistemas são as comunidades biológicas, ou seja, as populações de organismos da fauna e da flora interagindo entre si e interagindo também com o ambiente físico chamado biótopo. Simplificando:

    Biótopo: O solo, as águas, o clima, a luz solar, etc.
    Biota: A fauna e a flora, os micróbios, os seres vivos em geral.
    Ecossistema: O conjunto formado pela biocenose e pelo biótopo.
    Bioma: Um conjunto de ecossistemas constitui um bioma.
    Biosfera: O conjunto de todos os biomas da Terra, constitui a biosfera.


Portanto, a Mata Atlântica é um bioma - um conjunto de ecossistemas. Ela é o segundo bioma mais ameaçado da biosfera, perdendo apenas para as quase extintas florestas da ilha de Madagascar. Apesar de reduzida a poucos fragmentos, na sua maioria descontínuos, a sua biodiversidade é uma das maiores do planeta . Mesmo após todas as extinções que já ocorreram, ele ainda possui mais de 22 mil espécies, quase nove mil delas endêmicas (que só existem nesse bioma), superando a biodiversidade da Amazônia. Infelizmente, 383 desses animais e plantas estão ameaçados de extinção - entre eles animais como a Onça Pintada, a Onça Parda, a Jaguatirica, a Anta, o Tatu, o Mico Leão da Cara Preta, a Gralha Azul, e plantas como o Jequitibá, a Araucária, o Pau-Brasil, o Jatobá, a Peroba e a Palmeira Juçara.

Mesmo reduzida e muito fragmentada, a Mata Atlântica possui um a importância enorme, pois exerce influência direta na vida de mais de 80% da população brasileira que vive em seu domínio. Das 9 bacias hidrográficas do país, 7 nascem na Mata Atlântica. Nas cidades, áreas rurais, comunidades caiçaras e indígenas, ela regula o fluxo dos mananciais hídricos, assegura a fertilidade do solo, controla o clima e protege escarpas e encostas das serras, além de preservar um patrimônio histórico e cultural imenso. As regiões em que ocorre abrigam ainda belíssimas paisagens, verdadeiros paraísos tropicais e sub-tropicais, cuja proteção é essencial ao desenvolvimento do ecoturismo.




Localização

Antes do literal "descobrimento" europeu do Brasil, a Mata Atlântica percorria quase todo o litoral brasileiro e ainda avançava para o interior do país, estendendo-se do Ceará ao Rio Grande do Sul, passando pelos territórios dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará, ocupando uma área de 1,3 milhão de km². Ela chegava a quase encontrar com a Floresta Amazônica. Atualmente, restam apenas 7% de sua extensão original. Muitos desses remanescentes se encontram em região serrana de difícil acesso, o que os mantiveram relativamente preservados e intocados. A maior área remanescente se encontra no Vale do Ribeira, ao sul do Estado de São Paulo. Os outros 93%, antes cobertos, deram lugar às grandes cidades, pastos, agricultura e terras degradadas, improdutivas.


Abaixo o link para se navegar no mapa dos remanescentes florestais.
http://mapas.sosma.org.br/

As várias matas da Mata Atlântica

É importante ressaltar que a Mata Atlântica não é apenas aquela floresta atlântica que se vê perto do litoral, mas um bioma, uma junção de ecossistemas com similaridades e diferenças e com processos ecológicos que se interligam. O que define e difere os ecossistemas associados à Mata Atlântica são a temperatura, a freqüência de  chuvas, a altitude, a proximidade do oceano e a composição do solo, ou seja, todo o Biótopo. Por isso, a Mata Atlântica possui várias formações vegetais particulares (Fitofisionomias) em cada um de seus ecossistemas. Estes ecossistemas recebem denominações especiais. Abaixo eu as exponho da forma mais simplificada que encontrei:

Floresta Atlântica (Floresta Ombrófila Densa): Ombrófila - do grego “amigo da chuva”- por ser uma região de muita precipitação durante todo ano. Ocorre na costa atlântica do Brasil, prioritariamente na Serra do Mar. Floresta exuberante, com vegetação densa e variada, apresentam árvores com folhas largas e perenes. Abriga árvores que atingem de 20 a 40 metros de altura. Há grande diversidade de epífitas, como bromélias e orquídeas. Grande parte da sua biodiversidade está localizada no estrato superior composto pelo encontro entre as copas das árvores - o chamado “dossel”.


Mata de Araucárias (Floresta Ombrófila Mista): ocorre nas regiões de planalto acima de 800 metros de altitude, mais especificamente na região Sul do País e na Serra da Mantiqueira. Se caracteriza pela presença marcante do pinheiro brasileiro - a Araucária - entre outras árvores características da Floresta Ombrófila.


Floresta Estacional (Decidual ou Semi-decidual): mata com árvores de 25m a 30m, com a presença de espécies que soltam suas folhas durante o inverno, a estação mais seca. Considerável ocorrência de epífitas e samambaias nos locais mais úmidos, e grande quantidade de cipós (trepadeiras). Ocorriam, antes da degradação pelo homem, a oeste das Florestas Ombrófilas da encosta atlântica, entrando pelo Planalto Brasileiro até as margens do Rio Paraná.

Campos de Altitude: campos naturais que ocorrem nas partes mais altas da Serra da Mantiqueira e outras regiões. Predomínio de gramíneas de diferentes tamanhos e pequenos arbustos - uma vegetação adaptada ao frio e a um solo mais pobre.



Restingas e Manguezais: ocorrem nas regiões litorâneas, próximas ao mar. Possui flora de estatura mais baixa. O ecossistema de restinga é uma das áreas mais valiosas do planeta em biodiversidade e também uma das mais ameaçadas.



 
Esses ecossistemas muitas vezes se conectam um ao outro nas chamadas áreas de transição ecológica, caracterizadas pelo trânsito de animais e plantas, o fluxo de genes da fauna e flora.

Além dos exemplos citados acima, há os ricos ecossistemas aquáticos, submersos nos rios e lagos da Mata Atlântica, muito ameaçados pelo desmatamento das matas ciliares, o assoreamento dos mananciais, a poluição da água, e pela construção de represas sem os devidos cuidados ambientais.

As maiores ameaças à Mata Atlântica

A destruição da Mata Atlântica é permitida sob o pretexto de ampliar as áreas de cultivo e incentivar a economia, porém esta destruição em nada diminui a fome e a miséria no país. A causa real e sincera, desde o descobrimento do Brasil, é o desejo de enriquecimento rápido através de um desenvolvimento não sustentável e  da manutenção das desigualdades sociais. Tudo agravado pelo crescimento populacional, pelas leis da sociedade de consumo e pela ignorância. Seguem abaixo as principais ameaças pontuadas:

- Expansão imobiliária, industrial e agropecuária

- Extração de Madeira

- Poluição do ar e dos rios

- Caça e comércio de animais silvestres

- Extração de palmito

- Expansão dos plantios florestais exóticos: plantações de pinus e eucaliptos, os chamados “desertos verdes”.

- Contaminação biológica: introdução de espécies exóticas. Pinus, eucalipto, taquarinha, palmeira real, lírio-do-brejo, chuchu, rã-touro-gigante, caramujo africano e javali são alguns exemplos de espécies que foram introduzidas na Mata Atlântica e causam grande desequilíbrio ao ecossistema.

- Mineração: extração de minério, ouro, saibro, caulim, etc.

- Carvoarias: produção de carvão vegetal para alimentar a indústria metalúrgica.

- Turismo não sustentável


Os efeitos negativos de tudo isso são a supressão da biodiversidade em vastas áreas, com a possível perda de espécies conhecidas e ainda não conhecidas pela ciência, a diminuição na quantidade e qualidade da água de rios e mananciais, diminuindo a fertilidade do solo e sua sustentação, causando deslizamentos e erosões, afetando características do microclima nesses delicados ecossistemas e contribuindo com o problema do aquecimento global. Os números impressionantes da destruição do bioma demonstram a deficiência das políticas de conservação ambiental no país e a precariedade do sistema de fiscalização dos órgãos públicos.


Hoje a mata atlântica se encontra “teoricamente” protegida por suas 860 pequenas unidades de conservação, que são constituídas por Estações Ecológicas, Reservas Biológicas, Parques Nacionais, Parques Estaduais, Monumentos Naturais, Refúgios de Vida Silvestre, Áreas de Proteção Ambiental, Áreas de Relevante Interesse Ecológico, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas, Reservas de Fauna, Reservas de Desenvolvimento Sustentável, Reservas Particulares do Patrimônio Natural. Há grandes áreas de mata ainda fora dessa proteção, seriamente ameaçados pelos latifundiários da bancada ruralista no Congresso, que vem conseguindo aprovar, neste ano, um novo Código Florestal de alto viés agropecuário imediatista; sendo a expansão agropecuária sobre as áreas de floresta apenas um reflexo do crescimento insustentável do consumo de recursos naturais por parte da população urbana.




Mata adentro - Próximos posts

Acima expus o conhecimento básico sobre a Mata Atlântica que todo ecoturista deveria ter para melhor admirar e preservar esse bioma. Na seqüência de posts explorarei com mais detalhes, ainda que de forma resumida, os ecossistemas, a história e as possibilidades de preservação desse magnífico monumento vivo da natureza brasileira.

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Sobre o autor: Família, amigos, florestas, montanhas, praias, bichos, música, aventura, antropologia, história, ciência, literatura, audiovisual e, lá no fundo, talvez o João. ProjetoEntreSerras

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